CÍRCULO DE MULHERES

Veio primeiro o tempo
em que, pela boca das mães,
se conhecia o aroma do leite
e os filhos, de lábios atravessados
pelo mel, moldavam com sangue
o próprio rosto.
Agora, como num feitiço,
as mulheres rodam em círculo
de mãos dadas.
Dentro da roda permanecem os filhos
que elas protegem com o olhar
para que não venha cegá-los a lua cheia.

(gentilmente cedido por
GRAÇA PIRES do blogue:

http://olhoscordemel.blogspot.com

que convido a visitarem.)

SONHO

…e lá fora o mar revolto, nas pedras batia. Pela vidraça da janela olhava a fúria das ondas que

fazia com que mar espingasse distante, ao ir de encontro ao cais. Os barcos que avistava na

penumbra da noite, pareciam gemer a cada açoite. Não havia velas, nem  mastros, apenas

os barcos tremulavam ao ritmo desesperado das ondas.
Ali fiquei a acompanhar o marulhar, a natureza e seus movimentos inimagináveis, mas de rara e

 angustiante beleza. O vento úmido parecia umedecer minha alma. E nesse transe, era evidente a minha

angustia a me questionar: por que tanta fúria, tanto desespero?
Não sei por quanto tempo ali fiquei, mas sei, que nesses instantes, por terras distantes viajei. Embarquei

 numa viagem sem rumo, sem destino, mas você estava lá, do outro lado do cais a me aguardar.
Ao acordar percebi; não havia ondas, nem mar. Apenas os meus olhos a marejar. Olhei a minha volta, o dia

 amanhecia, estava só. O barulho das ondas continuava a ressoar em meus ouvidos, porém, o mar mais

calmo, o vento soprando de mansinho. Esfreguei os olhos e pensei: deve ter sido um sonho.
Fiquei ali parada por instantes, tentando entender. Olhei dentro de mim vi os barcos que atravessavam o

 tempo levando os sonhos, as ilusões e aportei em terra firme. Lá fora estava a vida, me convidando a

viver, meu amor a me esperar e novos sonhos a sonhar…

gentilmente cedido por:

LÚCIA LABORDA do blogue:

http://olhoscormel.blogspot.com

que convido a visitarem.

Falando de Neruda…

(as cartas que escreveu a Rosário,com quem casou em 1967).Em Portugal Editor:

DOM QUIXOTE.Edição deste ano. 285 páginas.

Detalhe ilustrado de uma das cartas de amor de Neruda.Na Espanha, a editora Seix Barral acaba de lançar em livro as mais desesperadas e intensas cartas de amor de ninguém menos do que Pablo Neruda. Foram todas endereçadas a Matilde Urrutia, amante do poeta por 27 anos e musa inspiradora de Os versos do capitão (Bertrand) e Cem sonetos de amor (L&PM). Durante sete anos os dois mantiveram uma relação clandestina, enquanto Neruda ainda era casado com a artista plástica argentina Delia del Carril. Com o divórcio em 1955, viveram juntos até a morte do poeta, em 1973.

Passados dezenas de anos do falecimento de um autor célebre, muitas vezes resta apenas como opção aos editores, após haver publicado já o último dos manuscritos descartados (O original de Laura, de Nabokov, é o exemplo mais recente), chafurdar na correspondência pessoal do morto, último desvão de material inédito.

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

O FUTURO É ESPAÇO
O futuro é espaço,
espaço da cor da terra,
da cor da nuvem,
da cor da água, do ar,
espaço negro para muitos sonhos,
espaço branco para toda a neve,
e para toda a música.

Atrás ficou o amor desesperado
que não tinha lugar para o beijo,
tem lugar para todos no bosque,
em plena rua, em casa,
tem sítio subterrâneo e submarino,
que prazer é achar, por fim,
subindo
um planeta vazio,
grandes estrelas claras como a vodca
tão transparentes e desabitadas,
chegar com o primeiro telefone
para que falem mais tarde outros homens
de suas enfermidades.

O importante é apenas perceber-se,
gritar desde uma dura cordilheira
e ver numa outra ponta
os pés de uma mulher recém-chegada.

Adiante, vamos sair
do rio sufocante
em que com outros peixes navegamos
desde a manhã à noite migratória
e agora neste espaço descoberto
vamos voar para a pura solidão.