Tenho saudades do meu Portugal

São oito e trinta. O sol doura das árvores. Os carros começam a enervar-se com a pressa de cumprir semáforos e horários. Desço para o trabalho e reparo que toda a gente fala da demissão de Sócrates. “Finalmente cumpriu o que disse.”; “ainda bem que se foi”; “devia ir só com bilhete de ida!….
O contentamento da maioria das pessoas estava visível, não porque se sentiam com menos dificuldades, mas por se terem libertado de um PM que as enganara.
– A pior escravatura é a da mentira, disse um velho, já bem entrado na casa dos setenta, sentado num verde banco da praça central da Avenida Arriaga. Levantava o experimentado braço, com o afiado indicador e repetia: – A mentira é a pior forma de escravizar alguém. Iludir o futuro e a esperança das pessoas é o mesmo que negar a liberdade de escolha.
Olhava para a rotunda do Infante e setenciou:
-Aquele é que foi um homem. Nunca desistiu dos seus ideais. Levou a que outros homens dessem ao mundo novos mundos. Mas nunca disse que era fácil. E quando as tempestades chegaram não chantagiou ninguém. Manteve-se firme como a proa dum navio perante as ondas da adversidade. Veêm aquela árvore?- E levantando o braço na direção do poente. – Portugal precisa fazer florescer o fogo pátrio, como as flores daquela árvore!
As pessoas paravam para ouví-lo, algumas acentiam com a cabeça, depois parecendo ter ganho novo ânimo, erguiam o rosto de encontro ao sol matinal de primavera e, um breve sorriso de esperança pendurava-se nos seus rostos como folhas verdes de árvores renovadas pela chuva.
A manhã crescia, verde-esperança, verde-verdade. O velho ergeu-se e, caminhando lentamente sobre os desenhos da calçada portuguesa, dirigiu-se para o Jardim Municipal.
Subiu os canteiros, contornados de passeios de calhau roliço e endireitando-se, frente aos bambus, apreciou os repuxos que subiam em jactos de água renovada e tocava os rebentos jovens da planta.
-O país precisa de jovens empreendedores que sejam regados por novas esperanças, não controlados como se fossem carneiros ou bezerros. Eu tive que fazer guerra em África. Matei porque me exigiam. era uma questão de sobrevivência… Mas a morte pior estava para vir. É ver assassinar os meus jovens com a droga da facilidade, com a droga do não esforço, com a droga da ilusão…
E duas enormes lágrimas foram acrescentar o caudal do repuxo. Tirou o lenço imaculado do bolso e limpou os olhos vermelhos de dor.
As plantas floresciam de tantas cores e aromas. Um melro preto de bico amarelo voou rente ao chão, e depois, numa curva acrobática empoleirou-se no ramo duma canforeira. Depois erguendo as asas e batendo com a pata no bico, como maestro que ergue a batuta, começou o seu canto de enamoramento.
O velho ficou a ouví-lo extasiado pela melodia da água e do pássaro.E com um bocejo exclamou:
– Tenho saudades do meu Portugal!
JORDAS

(do blogue: http://vendohistorias.blogspot.com
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