Falando de Neruda…

(as cartas que escreveu a Rosário,com quem casou em 1967).Em Portugal Editor:

DOM QUIXOTE.Edição deste ano. 285 páginas.

Detalhe ilustrado de uma das cartas de amor de Neruda.Na Espanha, a editora Seix Barral acaba de lançar em livro as mais desesperadas e intensas cartas de amor de ninguém menos do que Pablo Neruda. Foram todas endereçadas a Matilde Urrutia, amante do poeta por 27 anos e musa inspiradora de Os versos do capitão (Bertrand) e Cem sonetos de amor (L&PM). Durante sete anos os dois mantiveram uma relação clandestina, enquanto Neruda ainda era casado com a artista plástica argentina Delia del Carril. Com o divórcio em 1955, viveram juntos até a morte do poeta, em 1973.

Passados dezenas de anos do falecimento de um autor célebre, muitas vezes resta apenas como opção aos editores, após haver publicado já o último dos manuscritos descartados (O original de Laura, de Nabokov, é o exemplo mais recente), chafurdar na correspondência pessoal do morto, último desvão de material inédito.

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

O FUTURO É ESPAÇO
O futuro é espaço,
espaço da cor da terra,
da cor da nuvem,
da cor da água, do ar,
espaço negro para muitos sonhos,
espaço branco para toda a neve,
e para toda a música.

Atrás ficou o amor desesperado
que não tinha lugar para o beijo,
tem lugar para todos no bosque,
em plena rua, em casa,
tem sítio subterrâneo e submarino,
que prazer é achar, por fim,
subindo
um planeta vazio,
grandes estrelas claras como a vodca
tão transparentes e desabitadas,
chegar com o primeiro telefone
para que falem mais tarde outros homens
de suas enfermidades.

O importante é apenas perceber-se,
gritar desde uma dura cordilheira
e ver numa outra ponta
os pés de uma mulher recém-chegada.

Adiante, vamos sair
do rio sufocante
em que com outros peixes navegamos
desde a manhã à noite migratória
e agora neste espaço descoberto
vamos voar para a pura solidão.

 



Anúncios

Mais de 700 visitas

Este blogue inseriu o seu primeiro post a 09 de Janeiro de 2011, e hoje ultrapassou as 700

visitas, o que muito me satisfaz.Agradeço a todos os que por aqui passaram e espero

que este blogue possa ser permanentemente do vosso agrado.

A CANÇÃO DO ADEUS

Deixa-me aquiE não te preocupes: não chorarei os nossos sonhos, nem mergulharei na densa tristeza que me causa a tua partida. Antes, recordarei os momentos felizes em que a tua presença coloria o mundo.
Porque não é sábio aquele que lastima o fim do caminho e esquece os dias felizes em que desfrutou da jornada. Ou amaldiçoa o fim da nascente cristalina, que por tanto tempo saciou a sua sede.
Vai em paz. E não te condoas dos sonhos que me levas, pois são os mesmos que um dia me trouxeste. Abençôo tê-los colhido das tuas mãos, bebido a luz dos teus olhos e ouvido a música da tua voz.
Que não te aflija o remorso. Porque nenhum mal me causaste, e jamais te agradecerei o suficiente, por todo o bem e toda a felicidade que trouxeste à minha vida.
É verdade que uma parte de mim se sente morrer, ao antecipar o vazio da tua ausência; entretanto, esta mesma parte jamais se sentiu tão viva, como quando estava a teu lado.
É doloroso, sim, sentir que se esvai a felicidade; todavia, mil vezes pior seria o não havê-la conhecido. Ainda que me fira a lâmina da saudade, o bálsamo das lembranças será o meu alívio.
Porque a tua recordação aquecerá as minhas noites. E não será o fantasma do teu corpo que acolherei em meus lençóis, mas a presença viva do amor que existia em nossas noites.
Eis que a planta não tenta deter o sol, ao sentir o vento frio do crepúsculo; aguarda, entretanto, a sua volta, para que à caricia dos seus raios possa mais uma vez oferecer as suas pétalas.
O moinho não tenta aprisionar o vento; apenas utiliza a sua passagem, para moer os grãos que são a sua razão de existir. E a saudade não mata o amor; apenas o torna presente na ausência.
Pudesse eu e pararia o tempo, naqueles dias em que juntos caminhávamos; em que era doce ver refletida nos teus olhos a mesma emoção que fazia brilhar os meus olhos.
De nada me serve, entretanto, implorar para que fiques. Como de nada adianta ao homem manter junto a si o cadáver do ser amado, que o tempo fará em breve decompor-se.
Aquele que se lamenta por um amor que se vai, é como o jardineiro que em pedras soterra o seu jardim, asfixiando as flores que cultivou e por tanto tempo perfumaram a sua vida.
Segue o teu caminho. E que não te preocupem as lágrimas que possam rolar por meu rosto; nelas não está a dor da saudade, nem a amargura de te haver perdido.
Mas a infinita alegria de te haver conhecido.

(gentilmente cedida pelo ARABE do blogue:

http://ohassan.blogspot.com

que convido a visitarem.)

A MULHER PROIBIDA

Você foi o Quadro mais bonito, a Tela mais difícil

Que em Vida eu pintei…

Você foi, a Mulher Proibida,

A que teimei em fazer…

Você possuía as cores mais quentes,

Os tons mais ardentes,

Que um Pintor pode ver…

Você foi, a Imagem Sonhada,

A Mulher Desejada,

A Mulher que Eu mais Amei…

Mistura de Poesia em Pintura,

Doçura e Prazer,

A que fez um Pintor em Poeta se tornar,

Pra poder te Criar

Por Você fui buscar tintas diferentes,

Misturando amanhecer com anoitecer,

nascente e ocaso,

Pra compor a mais Bela Moldura…

Nessa Loucura de Amor

Fui na Natureza te Encontrando…

Mas…

Para Tua Imagem de Mulher Proibida Ter,

Somente em Sua Tela Mental

Este Simples Poeta conseguiu,

O Teu Retrato Fazer …

 

(gentilmente cedido por MAJU
do blogue:
http://mjsv.no.comunidades.net

que podem visitar:)

Canção de infortúnio para olheiras e guelras – Cantilena

outrora foi o pranto que vazou a garganta
penetrou nas chagas da pele, fez moradia
eternizou-se em montanhas de silencios

essas estranhas correntezas corróem-me
são silvos no meio de tormenta e estrada
cantam comigo o desvario de tantas vozes

outrora foi uma palavra de gesto destituído
compilada na enciclopédia das galáxias
a irromper–se em predicados de gula febril

senhoria de tantos mistérios a quem invoco
em triste cantilena sobre preces e pretéritos
nesta tarde em que se ruflam todos os poentes

CANTILENA

às vezes eu penso, ou então não penso.
às vezes cresço por dentro e então digo:
de quem é esta terra mais pequena, aquele
espaço no cabelo mais pequeno tão quando
a tua mão tão na minha? apertá-la é um lugar
muito perto. e digo ainda: quem é a locomotiva
de silêncio? lá fora é dia e a noite é um moinho.
sim, a planta entende as tuas pernas porque canta
nelas. a mão bate na cara, a canção hoje canta!
se alguém me perguntar eu digo que a beleza
é uma garganta toda azul a escorregar no céu.
e falo numa máquina feia de segredar ao ouvido.
quero comer o mar
quero um silêncio assim durante quinhentos poemas

Rui Costa

Gentilmente cedido por ASSIS DE FREITAS

do blogue:

http://mileumpoemas.blogspot.com

que convido a visitarem)