Ao meu corpo te chamo – Rosa Solidão

Fecho os olhos…em sonhos te chamo ao meu corpo de água
À minha cama de espinhos…aos meus lençóis de amargura
Ao meu sono inquieto…às minhas madrugadas de mágoa
Chamo-te à minha noite vazia…ao meu olhar de ternura

Sou uma pétala a entardecer…uma folha seca de Outono
Nua de mim…despida de ti…sou o que sobrou da ilusão
Uma pálida boca…um triste sorriso…despido de sonho
Silencioso grito…num corpo de mulher vestido de solidão

Comigo dorme a noite…a noite negra…o vazio dos braços
E o silêncio sufocado…e as mãos sem nada e eu sem mim
E o corpo adormecido…e a dor que me prende…os laços
E o tempo que se esvai…e este labirinto onde me perdi

Tenho as asas cansadas…o coração ferido…a boca despida
Os sonhos rasgados…os passos perdidos… o olhar vazio
O azul enegrecido…o céu tão longe…e eu de mim esquecida
E os lençóis gelados…e a pele sem ti…e a mulher com frio

Entardeci e envelheci…perdida de mim e esquecida de ser
Esperei-te era rosa…fiz-me espinho…mastiguei os cardos
Caminhei pelas pedras…chorei invernos…deixei de querer
Cantei a dor da ternura…soletrei poemas…escrevi dardos

Já abracei tantos sonhos…já escrevi tanta mágoa…já chorei
Despedi-me do amor…amordacei o desejo…parei no tempo
Afundei-me no abismo…voei no infinito…ao céu não cheguei
Voei no limbo…abraçei as trevas e dancei nua na voz do vento

RosaSolidão

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