70 anos depois…

Lino Vitti

Não sou de guardar o que tenho escrito em jornais, revistas, folhetos ou coisas que tais. Às vezes, porém, ou por acaso ou por descuido, no fundo de uma gaveta, mexida extemporaneamente, surge um papel já amarelecido e nele um escrito que pode ser um artigo, uma crônica, um soneto, um poema. E a curiosidade que é invencível em todo o ser humano, lá vai fuçar e o poeta encontra sempre um soneto que relê e até acha que não é de sua autoria. E nesta minha última aventura arquivológica, não mais na gaveta tradicional, mas no bojo deste saco de antiguidades eletrônicas, o senhor computador, esbarrei com este saudoso poema, escrito em 1936, quando voluntariamente aprisionado em seminário religioso, onde, por cúmulo, era proibido poetar. Vejam os leitores a curiosidade e deduzam se já Lino Vitti se fazia ou não candidato ao principado dos poetas piracicabanos.

A CRUZ

(Seminarista -1936 –l6 anos de idade)

Bendita cruz, sagrado lenho,

Onde expirara o Salvador,

A ti agora em mente tenho

Pois tu és santo, és todo amor.

Desejo amar-te e a ti venho

Com humildes preces ao Senhor,

Porque O ostentas em teu lenho,

Porque Ele amou, por nós, a dor.

Tu és, ó Cruz, sinal de vida,

A nós dás força em toda lida,

Firma do Céu, da Salvação.

Do Santo Deus és o estandarte

Por isso mais eu quero amar-te,

Até ao Céu – na eterna mansão.

A Cruz, aquela de onde pendeu o Cristo, não cabe apenas num singelo soneto de um poeta deste século. Exigiria muito mais, talvez um Lusíadas de Camões, uma Ilíada, um Homero, um Dante Alighieri, um Victor Hugo para dizer realmente o que ela é, o que significa, porque existiu, para que serviu; um poema universal histórico, um livro escrito pelo Papa, uma enciclopédia de religião. Mesmo assim faltaria sempre dizer que nela foi crucificado e morreu um Deus, a Segunda Pessoa de uma Trindade infinita e eterna.

Tempos de adolescente eu fora o leitor da Via Sacra , na igreja de Santana, terra que me viu nascer e que guardo no mais profundo do coração. A Via Sacra é uma reedição sintética do drama do Calvário, e a Igreja Católica presta uma condigna homenagem ao colocar no templo l4 quadros biblicos como 14 estações que sintetizam o curso de Cristo, carregando a própria Cruz na qual seria imolado e realmente o foi, para propiciar a salvação das almas de toda a humanidade.

Pelo dito nas linhas acima vê-se quanto é amada e dignificada a Cruz. Escolas, hospitais, parlamentos, prédios de caráter publico, caminhos, alcantis montanhosos, praças de esportes, e outros muitos locais, inclusive no peito da roupa de muitos cidadãos, cidadãs, crianças e jovens, é uma honra ver brilhando um crucifixo, o símbolo daquela figura santíssima que um dia se ergueu no alto do Calvário, e mostrou ao mundo que alí estava o instrumento onde foi pregado, sofreu durante três horas, morreu, o próprio Filho de Deus e, a cuja vista, foge o Espírito do Mal.

À beira dos caminhos, em encruzilhadas, ao relento ou sob um teto humilde e rústico, encontramos muitas vezes cruzes toscas e, de tão antigas, cobertas pela folhagem e flores de alguma trepadeira silvestre, mostrando aos passantes que, casualmente por ali transitem, o triste local de um crime, de uma morte trágica, de um sepultamento ocorrido por vingança ou eventual acontecimento num misto de amor e ódio, local preferido pelos peregrinos para pernoites, uma cruz enfim, denunciadora de algo a ser perpetuado por aquela figura tão representativa de sentimentos humanos,

Há uma cruz, entretanto, que assume uma grandeza celestial em noites estreladas a que chamamos Cruzeiro do Sul. Até no espaço infinito da noite, ao levantar o olhar para o alto a Cruz brilha, a cruz fala, a cruz ensina, a cruz ilumina, para eternizar o eterno acontecimento de Cristo crucificado para salvação da humanidade.

Efigênia Coutinho
Presidente Fundadora
AVSPE

(recebi este texto por email da s/autora e resolvi inserir)