Um poema de Ana Luisa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Porta(25-04-2012)

tão novo de morrer,
quase morrido

Tem vindo a ser matado

por sorrisos e cega obediência,

por sustos assustados,

ou simplesmente por não ser presente

e ter sido esquecido

na cave desta casa

Nela nasceu erguido

entre o mais desatado e o mais belo de ser:

tanques e cravos, e casos curiosos raso a mitos,

e sérios casos de paixão a sério,

e também carne e vida,

o que de mais importa neste mundo

Repousar é de morto, e ele terá morrido:

sem exéquias sequer,

só de mentira,

está o seu corpo muito lá em baixo,

como se fosse um peso que já não:

Nem mesmo incomodar

os números que voam, desatados,

os bárbaros que uivando sobrevoam

o telhado da casa

e nele pousam, cruéis e confortáveis,

repousam dos seus rumos de conquista

Tão novo de morrer,

morrido quase

Quem as exéquias suas?

Não há mural que o ressuscite aqui?

Ou chamamento novo que o congregue

de novo e em colisão

nestas janelas?

Dos que ao seu lado viveram lado a lado,

desses o susto bom de ele nascer,

e a desobediência ao erro e ao dobrado

Dos que depois nasceram:

a memória,

talvez da sua mão, ou mãe: memória,

o que de mais importa neste mundo

Que esses possam dizer que não,

que ainda vive,

que é novo de morrer e ainda vive,

e que o seu funeral: coisa sem rumo

Mesmo que chova hoje, como chove,

e as nuvens se perfilem junto aos uivos,

mesmo assim pressenti-lo

Teimar que é impossível

morrer assim tão novo

Saber

que isto não pode ser assim

Ana Luísa Amaral

———————————————————————-

O velório do eurodeputado bloquista terá lugar no Palácio Galveias(Lisboa) este sábado,

a partir das 15 h. No domingo realiza-se uma sessão evocativa de Miguel Portas

no Jardim de Inverno no Teatro S. Luiz, com início às 14.30h.

Guernica 26 de Abril de 1937

Foi bombardeada por aviões alemães, apoiando o ditador Francisco Franco.

O quadro pintado por Picasso representativo desse momento, encontra-se no
Centro Nacional de Arte, Rainha Sofia, em Madrid.

A pintura foi feita com o uso das cores preto e branco – algo que demonstrava o sentimento de repúdio do artista ao bombardeio da pequena cidade espanhola. Claramente em estilo cubista, Picasso retrata pessoas, animais e edifícios nascidos pelo intenso bombardeio da força aérea alemã (Luftwaffe), já sob o controle de Hitler, aliado de Francisco Franco.
Morando em Paris, o artista soube dos fatos desumanos e brutais através de jornais – e daí supõe-se tenha saído a inspiração para a retratação monocromática do fato.
Sua composição retrata as figuras ao estilo dos frisos dos templos gregos, através de um enquadramento triangular das mesmas. O posicionamento diagonal da cabeça feminina, olhando para a esquerda, remete o observador a dirigir também seu olhar da direita para a esquerda, até o lampião trazido ainda aceso sobre um braço decepado e, finalmente, à representação de uma bomba explodindo.
Esse quadro foi feito também com o objetivo de passar para os que vissem, o que ele estava sentindo, um vazio por dentro de si, um conflito, uma guerra consigo mesmo buscando resposta pra sua vida amorosa , e toda vez que ele via o quadro, pensava consigo mesmo, será que o meu problema é maior que essa guerra, ou tem mais importância para os outros, e naquele momento ele conseguia esquecer. O que para nós demonstra uma grande preocupação por parte do autor do mesmo.

…./….

Há uns anos estive em Guernica. Foi uma sensação estranha o que senti, e também esperava
que a terra tivesse retratado melhor esse seu passado. Mas impressionou-me bastante estar
ao pé da árvore onde morreram tantas pessoas, e pisar chão que anos antes tão manchado
de sangue foi por ordens de um ditador.