Mais um Post com peças de MA Ferreira e poema de Alda Lara,devidamente cedidos por MA Ferreira(a quem muito agradeço)

MA Ferreira trabalhou estas peças de cerâmica utilizando argilo tabaco.
Depois queimou em alta temperatura 1.140 graus.

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AS BELAS MENINAS PARDAS

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trabajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!…)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente…

O mais, são histórias perdidas…
Pois que importam outras vidas?…
outras raças?… , outros mundos?…
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!…

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas…

Alda Lara

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Alguns dados sobre:

ALDA LARA
(1930-1962)
Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, no dia 9 de junho de 1930. Viveu em Lisboa desde a adolescência, onde concluiu o liceu e frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e de Coimbra (onde licenciou-se). Exerceu influência na renovação da poesia angolana, com seu comprometimento com a luta pela independência.

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br

A fonte de Alda Lara está no início deste blogue

sugiro uma visita ao blogue de MA Ferreira:
http://mdfbf.blogspot.com

Enrico Carrapatoso – A morte de Luís II da Baviera

A MORTE
“No meu império
O amor não cansa,
porque sofra por ter;
nem dói,
porque canse
de nunca ter tido.

A minha mão
pousa de leve
nos cabelos dos que pensam,
e eles esquecem;

Contra o meu seio se encostam
os que em vão esperavam,
e eles enfim confiam.
Dos meus lábios mudos
não vem canto como o das sereias,
nem melodia como a das árvores e das fontes.
Mas o meu silêncio acolhe
Como uma música indecisa
O meu sossego afaga
Como o torpor de uma brisa.”

“No meu domínio,
onde só a noite reina,
terás a consolação,
porque não terás a esperança;
terás o esquecimento,
porque não terás o desejo
terás o repouso,
porque não terás a vida.

“Bebe da minha taça,
que não se esgota,
o néctar supremo
que não enjoa nem amarga,
que não desgosta nem enebria.
Contempla, da janela do meu castelo,
não o luar e o mar,
que são coisas belas e por isso imperfeitas;
mas a noite vasta e materna,
o esplendor indiviso do abismo profundo!”

“Serei tua esposa materna,
tua irmã gémea encontrada.
E casadas comigo todas as tuas angústias,
tu próprio te perderás
em minha substância mística,
na minha existência negada,
no meu seio onde as coisas se apagam,
no meu seio onde as almas se abismam,
no meu seio onde os deuses se desvanecem.”

A PROVIDÊNCIA:
“Senhor Rei do Desapego e da Renúncia,
Imperador da Morte e do Naufrágio,
sonho vivo errando,
faustoso,
entre as ruínas e as estradas do mundo!
Senhor Rei da Desesperança entre pompas,
dono doloroso dos palácios
que o não satisfazem,
mestre dos cortejos e dos aparatos
que não conseguem apagar a vida!…

Senhor Rei Pastor das Vigílias,
cavaleiro andante das Angústias,
sem glória e sem dama
ao luar das estradas,
senhor nas florestas,
nas escarpas,
perfil mudo, de viseira caída.
Senhor Rei que a Morte sagrou Seu,
que a Morte sagrou Seu.”

O CORO:
“Trazei, pajens;
trazei, trazei, virgens;
trazei, servos e servas,
as taças,
as salvas
e as grinaldas
para o festim.
Trazei-as e vinde de negro,
com a cabeça coroada de mirtos.”

A PROVIDÊNCIA
“A morte é o triunfo da Vida!”

A PROVIDÊNCIA E O CORO
A morte é o triunfo da Vida,
A morte é o triunfo da Vida!”

O CORO
“Pela Morte vivemos
quando sonhamos,
porque sonhar é negar a vida.

A Morte nos guia,
A Morte nos busca,
A Morte nos acompanha.”

A PROVIDÊNCIA E CORO
“Teu amor pelas coisas sonhadas
era o teu desprezo pelas coisas vividas.”

O CORO
Rei-Virgem que desprezaste o amor,
Rei-Sombra que desdenhaste a luz,
Rei-Sonho que não quiseste a vida!

A PROVIDÊNCIA E O CORO
Entre o estrépito surdo de címbalos
Entre o estrépito surdo de atabales,
a Sombra te aclama Imperador!

FIM

Angélica Neto (Morte), Elsa Cortez (Providência), Coro Ricercare (dir. Pedro Teixeira), Sinfonietta de Lisboa, dir. Vasco Azevedo | Sobre texto de Bernardo Soares (Livro do desassossego), libreto de João Botelho, encomenda de ARDEFILMES para “O Filme do Desassossego” de João Botelho | Gravado no Convento dos Dominicanos, Lisboa, 27.11.2010 (captação sonora de Carlos Marecos)

Carrapatoso Luís II da Baviera Bernardo Soares João Botelho Desassossego