A crise do Papa, Crise da Humanidade

por Gilberto Bettini Bonadio em 02 de mai de 2012 às 00:25
O filme Habemus Papam vem contar a história de uma crise, não do papa ou da Igreja, mas de toda uma humanidade que resiste.
“Pobre do país que precisa de heróis”
Bertrold Brecht.
Habemus Papam (2011, dir: Nanni Moreti) é um filme que quer falar, como todo filme quer comunicar-se, mas ao contrário dos outros se comunica calando. A recusa da ação no filme mostra a paralisia do indivíduo contemporâneo que, diante de várias teorias e possibilidades de ação, paradoxalmente se arrasta para conseguir ir adiante, assim como suas produções, entre elas a ciência, Deus ou a religião, a política e a arte.

A história do papa eleito e que não se sente em condições (psicológicas, morais, humanas…) de assumir suas responsabilidades, causa surpresa não só na instituição da qual seria o líder ou nos milhões de fiéis que aguardam seu pronunciamento na Praça São Pedro, mas no espectador que é levado ao riso numa situação que reflete o ditado: seria cômico se não fosse trágico. É o que o diretor Nanni Moreti parece querer nos lembrar a todo o momento, pois seu filme expõe justamente a história de uma crise, ou melhor, de várias.
Diante da recusa do papa em assumir o posto, a cúpula diretora da Igreja decide então chamar um psicanalista para conversar com ele e tentar resolver o mais rápido possível a situação. Eis que então o problema vem à tona: papa e psicanalista não conseguem conversar, esbarram em vários obstáculos que vão desde a presença de todos os cardeais durante a “sessão”, até aos limites impostos pelos administradores do que pode ou não ser perguntado ao futuro pontífice. A psicanálise não consegue adentrar a religião e nem esta o deixa. Além de mostrar a impossibilidade e a recusa histórica de diálogo entre ciência e religião, o filme expõe, principalmente, a inadequação das respostas que estas duas vertentes de pensamento podem dar ao mundo tal como ele se encontra hoje. À inadequação das respostas corresponde a inadequação do sujeito que se vê solitário e deprimido por não conseguir mais agir diante de uma realidade que se modifica a cada instante, onde as certezas de épocas passadas são questionadas e descartadas facilmente, muitas vezes sem qualquer substituto em seu lugar.

Então estamos num beco sem saída, não há respostas, não há sentido algum! Não! É a resposta de Moreti. Ainda resta a arte! A arte que leva um papa a questionar suas aptidões, a recordar-se saudosamente do passado, de suas pretensões como ator, da sua felicidade juvenil. O lúdico, o jogo da arte que faz os cardeais a se unirem num campeonato de vôlei dentro do Vaticano enquanto esperam o retorno do papa fujão… O teatro onde o papa vai assistir a uma peça é onde ele termina sua jornada anônima pela cidade, pois a intromissão dos cardeais vem lembrar a exigência da volta ao trabalho a qualquer custo. A arte é interrompida para que se possa pela pressão retornar ao lugar que nos deram, ou que nos foi outorgado pela bondade divina, é preciso se ater ao princípio de realidade, é preciso se conformar e pacificar as contradições que não têm resposta, mesmo que esperemos insaciavelmente por uma.

A recusa em assumir a posição principal de cocheiro das rédeas da existência tornou a humanidade passiva, conformada, estabelecida em bases frágeis e é principalmente isso o que o filme de Moreti vem questionar. Criticando religião e ciência, colocando a ambas como produtos históricos da humanidade e tentando a todo custo denunciar a falsidade de uma divinização ou mistificação do humano e de suas atividades, o filme coloca o problema de como buscar respostas que satisfaçam e que orientem o sujeito de agora em diante, no mundo modificado. Ao apontar para a parcela de autonomia que todo sujeito possui e da qual tem abdicado em nome de outras coisas, Moreti critica toda forma de conformismo, principalmente o que pode ser causado pela religião, afinal trata-se também de um filme sobre a igreja católica. A cena final sugere a liberdade tal como nós poderíamos tê-la: a liberdade da recusa, a liberdade amparada na autonomia que se permite negar respostas que já não satisfazem, partindo em busca de uma compreensão mais digna para a existência. Tal possibilidade permanece, entretanto, ainda no domínio da ficção; é o buraco negro que fica na janela do papa quando este se retira.
Fonte: OBVIOUS