por Anna Carvalho em 16 de mai de 2012 às 01:05 |
Pina Bausch era espaços. Win Wenders, em seu documentário sobre a bailarina e coreógrafa, explora os espaços de Pina, que transcendem o palco.

Depois de ter visto “Buena Vista Social Club” e o “Quarto 666” confio nos documentários de Win Wenders. Não tive dúvidas, então, para sair de casa e ver o seu mais novo documentário, em 3D, “Pina”. Pina Bausch sempre foi um mistério para mim, o pouco que a conhecia era de vídeos do Youtube. Mas nada se compararia à experiência de assistir numa tela grande (em 3D) os movimentos da bailarina e de sua companhia, “Tanztheater Wuppertal Pina Bausch”, sob os olhares instigantes de Wenders.
O momento foi de descobrimento. Pina. Wenders. (3D).
O filme une duas linguagens muito particulares, o cinema e a dança, e promove um casamento perfeito entre Pina e o cinema 3D. Wenders mostra isso ao quebrar todas as regras e paredes e ao explorar a experiência de estar dentro de uma coreografia de Pina, pois a utilização do espaço é importante para o filme e para dança.

O filme é todo construído em torno de algumas peças da Cia de Pina e se baseia também nas respostas que os bailarinos deram ao documentarista. O diretor participa através do olhar da câmera e em nenhum momento ele se utiliza da própria fala para compor a estratégia do filme. A dança da Cia de Pina fala por ela e, por isso, não é necessário explicitar a biografia de Pina Bausch no documentário. O conhecer Pina vem através das falas de seus bailarinos que soam como pensamentos e ao escutarmos essas profundas opiniões, podemos compreender um pouco mais sobre a obra da coreógrafa e bailarina. Wenders, dessa forma, cria individualidades e permite momentos de interpretação onde os bailarinos expressam o que Pina é para eles e como os seus corpos podem representar os diversos sentimentos que a inspiravam.

A exploração espacial é a característica principal do filme. De uma intensidade brilhante e com uma montagem reflexiva, Wenders tira a Pina dos teatros e a coloca na cidade e nos arredores. O urbano, a natureza, o “fora do palco” é essencial para entendermos a modernidade de Pina e de Wenders. Os bailarinos completam a paisagem com seus cabelos, vestidos e força, muita força. Tudo parece necessário para que a magia se efetive. Os lugares comuns deixam de assim ser e passam a compor estratégias visuais e se movimentam junto com os corpos dançantes. O tom teatral se sobressai e acrescenta beleza aos movimentos. O palco é qualquer lugar e a câmera se intromete nas coreografias. Ora ela complementa os movimentos, ora participa subjetivamente da dança.

Desse modo, Wenders imagina a cidade de Pina, cidade que aparece e desaparece e que, sem a participação dos bailarinos, pode se tornar invisível aos nossos olhos. As representações que Wenders traz atuam no nível do imaginário e da ficção, a dança se torna uma adição à visualidade da cidade. Ao inserir os bailarinos em contextos assim, o diretor chama atenção para a atuação das pessoas nas cidades. Não se pode excluir as pessoas das cidades, são elas que a fazem. A cidade de Pina, portanto, pressupõe seus bailarinos. O documentarista torna visível o entorno, o não-lugar (para se dançar) e imagina uma cidade onde a dança compõe a paisagem e dela participa ativamente. Wenders nos dá uma nova sensação de cidade, ele acrescenta ao nosso pensar a estética de Pina o que, de certa forma, potencializa o nosso imaginário e ficcionaliza o documentário.
Eu, agora, imagino Pina dançando pelas cidades.

Fonte:Obvious