A Arte de Insultar

em Filosofia por Victor Silveira em 04 de mai de 2012 às 23:41
O que fazer quando se esgotam os argumentos? O insulto. Para o filósofo Arthur Schopenhauer, mesmo quando se está errado, o insulto seria a forma estratégica de ridicularizar emocionalmente pelas palavras, e manipular ao próprio favor, no calor de uma discussão.
Todavia este seria um manejo efetivo a curto prazo, pois algum tempo depois, a vitória poderia se voltar contra nós, quando a pessoa descobrisse que foi manipulada. Os escritos do filósofo são permeados de sarcásticos insultos, da mais alta classe e nível erudito. Pelo recurso da ironia seu pessimismo ácido é empregado com o fim de destruir a oportunidade de resposta do oponente. Abaixo seguem as proposições dos meus temas prediletos, do seu livro “A arte de insultar”
Amigos
Os amigos se dizem sinceros; os inimigos o são.
Amor sexual — no homem e na mulher
O homem tende, por natureza, à inconstância no amor; a mulher, à constância. O amor do homem diminui sensivelmente tão logo é satisfeito: quase todas as outras mulheres o excitam mais do que aquela que ele já possui, por isso sente a necessidadede variar. Em contrapartida, o amor da mulher aumenta justamente a partir desse momento. Isso constitui uma conseqüência do objetivo da natureza, que visa conservar a espécie e, portanto, multiplicá-la o máximo possível. Com efeito, o homem pode comodamente gerar mais de cem crianças em um ano se tiver à disposição outras tantas mulheres; já a mulher poderia, por mais homens que tivesse, dar à luz apenas um filho por ano (exceto no caso de gêmeos). Por essa razão, o homem está sempre à procura de novas mulheres, enquanto estas prendem-se firmemente a apenas um homem: pois a natureza as leva a conservar, instintivamente e sem reflexão, aquele que nutrirá e protegerá a futura prole.
Aquisição de livros
Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo.
Bibliotecas
Assim como os estratos da Terra conservam em série os seres vivos de épocas passadas, as prateleiras das bibliotecas conservam em série os erros passados e suas exposições que, como aqueles seres, eram muito vivos em sua época e faziam muito barulho, mas agora encontram-se rígidos e petrificados nos locais em que apenas o paleontólogo literário os examina.
O cérebro
O cérebro é o parasita ou o pensionista do organismo inteiro.
Charutos
O charuto é para o homem limitado um substituto oportuno dos pensamentos.
A escrita
A pena representa para o pensamento o que a bengala representa para a caminhada; mas o passo mais ágil é o que se dá sem bengala, e o pensamento mais perfeito, o que secompleta sem a pena. Somente quando começamos a envelhecer é que nos servimos de bom grado da bengala e da pena.
Escritores
Os escritores podem ser classificados como estrelas cadentes, planetas e estrelas fixas. As primeiras produzem surpresas momentâneas: olhamos para cima, exclamamos “olha lá!”, e elas desaparecem para sempre. As segundas, ou seja, estrelas que erram evagam pelo céu, têm mais consistência. Brilham com mais intensidade do que as fixas,embora isso se dê apenas por causa de sua proximidade, e são confundidas com as últimas pelos leigos. Entretanto, os planetas também precisam desocupar logo seu lugar; além disso, recebem luz emprestada e possuem uma esfera de ação limitada aos companheiros de órbita (os contemporâneos). Deslocam-se e alternam-se continua-mente: sua órbita não dura mais do que alguns poucos anos. Apenas as terceiras não mudam. Permanecem fixas no firmamento, possuem luz própria e atuam em todas as épocas, uma vez que seu aspecto não se altera com a mudança do nosso ponto de vista e não possuem paralaxe. Não pertencem, como as outras, a um único sistema(nação), mas ao mundo. No entanto, devido à altura da sua posição, na maioria das vezes sua luz precisa de muitos anos para se tornar visível a um habitante da Terra.
A filosofia futura
Quem quiser me superar poderá fazê-lo na largura, mas não na profundidade.
Os franceses
As outras partes do mundo têm macacos; a Europa tem franceses. É a mesma coisa.
O homem — um boneco
Às vezes converso com os homens do mesmo modo como as crianças conversam com seus bonecos: embora ela saiba que o boneco não a compreende, usando de uma ilusão agradável e consciente, consegue divertir-se com a comunicação.

FONTE: OBVIOUS