Florbela Espanca / Veneza: uma cidade criada por quem a vê

em Poemas por Rodrigo Della Santina em 18 de mai de 2012 às 23:52
O raro gosto de Florbela…

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar…
Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar,
Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!
Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus.
O amor dum homem? Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem, quando eu sonho o amor de um Deus?
Fonte: Obvious

Se não “a mais…”, Veneza é talvez “uma das mais” literárias e representadas cidades da
Europa. É por certo, impossível listar a fortuna literária, artística e histórica cujo
pano de fundo é estampado por esta cidade, sempre referida pelos seus canais onde navegam, além de suas célebres gôndolas, mistérios e mitos populares.

Desde o século XV e XVI, a “Sereníssima”, como era conhecida a atual cidade de Veneza, antes uma República pacífica, tinha ares de “recinto de férias e descanso”. As águas que a recortam e perpassam são entendidas como verdadeiros atores de influência em sua cultura, hábitos cotidianos e, inclusive, produção artística. Veneza teve uma produção artística rival da de outra grande República italiana, Florença. Os florentinos defendiam o primado do desenho; já os venezianos contrapunham a supremacia da cor. Há quem diga que tudo isso se deveu a influência do contato direto e cotidiano com as águas dos canais e do mar – que garantiu, por sinal, a soberania econômica desta cidade durante tanto tempo, se comparada às outras províncias da Península Itálica naquela altura.

Jessica e Shylock, personagens de “O mercador de Veneza”, num quadro de Maurycy Gottlieb

O século XVIII, dando agora um salto na História, nos legou a obra de Canaletto, pintor rapidamente recordado pelos delicados e cuidadosos panoramas venezianos. O século XIX, por seu lado, nos deu uma visão duplicada de Veneza: de um lado a cidade surge cercada de mistérios, de histórias assombrosas de afogamentos, de crimes, mas por outro de amores trágicos, de sofrimentos e até mesmo, por vezes, de decadência, visão essa que, de alguma maneira vai ecoar no século seguinte, nas palavras de Sartre e Mann. Basta lembrarmos que, séculos antes, em “O Mercador de Veneza” (1596-1598), de Shakespeare, o drama e a decadência já eram a atmosfera predominante, embora a peça seja considerada uma obra-prima da comédia. Do mesmo autor, em “Otelo, o Mouro de Veneza” (c. 1603) são a inveja e a ruína humana que encontram os seus lugares. Mais tarde, no século XIX, nasceu a Bienal de Veneza (1895), hoje uma das exposições de arte mais importantes do mundo.

Tintoretto, “Triunfo de Veneza” , óleo s/ tela (1584), Palácio Ducal de Veneza (detalhe).

A alvorada do século XX mostra-nos conscientemente Veneza segundo todo o peso das histórias nas quais a cidade foi assunto, tema ou cenário. Desde Thomas Mann, no início do século, com a “Morte em Veneza”, a Sartre, que dedicou à cidade um conjunto de ensaios, entre os quais “O Sequestrado de Veneza”, sobre Tintoretto, pintor que nasceu e sempre trabalhou em Veneza. É deste livro o primeiro dos trechos literários selecionados que seguem.

***

“…em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago . Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a ilha da frente com inveja: ali, há… o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim. Normalmente, contento-me com o que tenho mas, em Veneza, sou presa de uma espécie de loucura invejosa; se não me contivesse, estaria o tempo todo nas pontes ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece; me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou”.

SARTRE, Jean Paul. Veneza de minha janela. In.: O sequestrado de Veneza. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.

Fotograma do filme de Visconti “Morte em Veneza”.

“Finalmente ele o revia, o mais incrível desembarcadouro, aquela deslumbrante, fantástica composição arquitetônica que a República oferecia ao olhar atônito e cheio de veneração dos navegantes que dela se aproximavam – imponência etérea do Palácio, a Ponte dos Suspiros, as colunas à beira d’água com leão e o santo padroeiro, o perfil da fabulosa catedral sobressaindo suntuoso, o portal e o gigantesco relógio, que se deixavam entrever – e, enquanto o contemplava, Auschenbach ponderou que chegar a Veneza de trem, vindo por terra, era o mesmo que entrar num palácio pela porta dos fundos, e que jamais alguém deveria aproximar-se da mais incrível de todas as cidades a não ser de navio, atravessando o mar, como o fizera agora”.

MANN, Thomas. Morte em Veneza. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

“De novo, na imaginação eu te contemplo! Mais uma vez teu vulto se ergueu diante de mim… Não, não como te encontras, no frio vale, na sombra!, mas como deverias estar, dissipando uma vida de sublime meditação naquela cidade de sombrias visões, tua própria Veneza, que é um Eliseu do mar querido das estrelas, onde as amplas janelas dos palácios paladinos contemplam, com profunda e amarga reflexão, os segredos de suas águas silenciosas”.

POE, Edgar Allan. O Visionário, várias edições livres na web.

 

Fonte: OBVIOUS

A Arte de Insultar

em Filosofia por Victor Silveira em 04 de mai de 2012 às 23:41
O que fazer quando se esgotam os argumentos? O insulto. Para o filósofo Arthur Schopenhauer, mesmo quando se está errado, o insulto seria a forma estratégica de ridicularizar emocionalmente pelas palavras, e manipular ao próprio favor, no calor de uma discussão.
Todavia este seria um manejo efetivo a curto prazo, pois algum tempo depois, a vitória poderia se voltar contra nós, quando a pessoa descobrisse que foi manipulada. Os escritos do filósofo são permeados de sarcásticos insultos, da mais alta classe e nível erudito. Pelo recurso da ironia seu pessimismo ácido é empregado com o fim de destruir a oportunidade de resposta do oponente. Abaixo seguem as proposições dos meus temas prediletos, do seu livro “A arte de insultar”
Amigos
Os amigos se dizem sinceros; os inimigos o são.
Amor sexual — no homem e na mulher
O homem tende, por natureza, à inconstância no amor; a mulher, à constância. O amor do homem diminui sensivelmente tão logo é satisfeito: quase todas as outras mulheres o excitam mais do que aquela que ele já possui, por isso sente a necessidadede variar. Em contrapartida, o amor da mulher aumenta justamente a partir desse momento. Isso constitui uma conseqüência do objetivo da natureza, que visa conservar a espécie e, portanto, multiplicá-la o máximo possível. Com efeito, o homem pode comodamente gerar mais de cem crianças em um ano se tiver à disposição outras tantas mulheres; já a mulher poderia, por mais homens que tivesse, dar à luz apenas um filho por ano (exceto no caso de gêmeos). Por essa razão, o homem está sempre à procura de novas mulheres, enquanto estas prendem-se firmemente a apenas um homem: pois a natureza as leva a conservar, instintivamente e sem reflexão, aquele que nutrirá e protegerá a futura prole.
Aquisição de livros
Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo.
Bibliotecas
Assim como os estratos da Terra conservam em série os seres vivos de épocas passadas, as prateleiras das bibliotecas conservam em série os erros passados e suas exposições que, como aqueles seres, eram muito vivos em sua época e faziam muito barulho, mas agora encontram-se rígidos e petrificados nos locais em que apenas o paleontólogo literário os examina.
O cérebro
O cérebro é o parasita ou o pensionista do organismo inteiro.
Charutos
O charuto é para o homem limitado um substituto oportuno dos pensamentos.
A escrita
A pena representa para o pensamento o que a bengala representa para a caminhada; mas o passo mais ágil é o que se dá sem bengala, e o pensamento mais perfeito, o que secompleta sem a pena. Somente quando começamos a envelhecer é que nos servimos de bom grado da bengala e da pena.
Escritores
Os escritores podem ser classificados como estrelas cadentes, planetas e estrelas fixas. As primeiras produzem surpresas momentâneas: olhamos para cima, exclamamos “olha lá!”, e elas desaparecem para sempre. As segundas, ou seja, estrelas que erram evagam pelo céu, têm mais consistência. Brilham com mais intensidade do que as fixas,embora isso se dê apenas por causa de sua proximidade, e são confundidas com as últimas pelos leigos. Entretanto, os planetas também precisam desocupar logo seu lugar; além disso, recebem luz emprestada e possuem uma esfera de ação limitada aos companheiros de órbita (os contemporâneos). Deslocam-se e alternam-se continua-mente: sua órbita não dura mais do que alguns poucos anos. Apenas as terceiras não mudam. Permanecem fixas no firmamento, possuem luz própria e atuam em todas as épocas, uma vez que seu aspecto não se altera com a mudança do nosso ponto de vista e não possuem paralaxe. Não pertencem, como as outras, a um único sistema(nação), mas ao mundo. No entanto, devido à altura da sua posição, na maioria das vezes sua luz precisa de muitos anos para se tornar visível a um habitante da Terra.
A filosofia futura
Quem quiser me superar poderá fazê-lo na largura, mas não na profundidade.
Os franceses
As outras partes do mundo têm macacos; a Europa tem franceses. É a mesma coisa.
O homem — um boneco
Às vezes converso com os homens do mesmo modo como as crianças conversam com seus bonecos: embora ela saiba que o boneco não a compreende, usando de uma ilusão agradável e consciente, consegue divertir-se com a comunicação.

FONTE: OBVIOUS

Francine van Hove

 A adição de Van Hove mostra é povoada por jovens nuas. A luz que retrata é preciso e faz uma mudança imperceptível da realidade plausível. Muito naturalmente sua greve de personagens coloca que nos fazem sentir o equilíbrio frágil e sublime, entre a vida de um estado mais perfeito .Suas figuras e seu corpo (ela pintou a partir de modelos vivos) definir certos padrões de beleza. Esta habilidade é característica de um senso inato de estilo que sempre me pareceu necessário para pintores com alguma predisposição para estar fora de tempo. Pintura Van Hove tem a virtude essencial de sugerir, sem falar.Ela tem a arte de remover intermediários entre emoções e percepções. Os sentimentos mais sutis, as alusões mais tênues que nós dirigimos, chegamos a uma curiosa impressão de nitidez. E a vibração desta transmissão é puro prazer.” A.Blondel, (extrair um prefácio para um catálogo publicado em janeiro de 1984) Tradução em Inglês: O mundo remoto retratado por Van Hove é povoado por mulheres nuas mulheres jovens. Que expôs a iluminação ‘em é uma qualidade precisa que torna a sua realidade ligeiramente veer, quase imperceptivelmente, longe da realidade cotidiana. Suas figuras greve até muito natural poses que nos fazem sentir a existência de uma linha precária ainda requintado, dividindo-se entre o ordinário eo o extraordinário. Suas figuras (ela pinta de” ao vivo “Modelos) definir alguns cânones de beleza. Essa habilidade é característica de um senso inato de estilização Qual HAS’ve sempre foi necessário sentida por pintores que tende a pintar temas intemporais. arte Van Hove possui a qualidade essencial de sugerir, sem proselitismo. Ele abole a distância entre as emoções ea percepção. Os sentimentos mais sutis, as alusões mais tênue Ela estabelecidas nos deparamos de uma forma assustadoramente precisa. E o vibration’m sua transmissão é puro prazer .

 
fonte:www.francinevanhove.com

 

 

EUGÉNIO DE ANDRADE, in ATÉ AMANHÃ (Linear, 1978) , in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)

FRENTE A FRENTE

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
– e é tão pouco.

*

Fotografia: Embrace, de Don Mennig

*

(CC)

(extraído da página Facebook

de Anabela de Araújo)

com a devida permissão

Mais um Fotógrafo de que gosto e que me cedeu algumas das suas fotos: MANUEL VARZIM

Já tenho referido neste blogue que gosto muito do Porto, que considero que é uma cidade que os

portugueses deviam conhecer(aqueles que ainda não o tenham feito) e para o mês que vem há

as Festas de S. João que é um momento de confraternização entre as pessoas, com música,

sardinhas assadas e fogo de artifício. Mas o Porto tem muitos pontos de interesse, que seria

impossível num simples post referir, daí apenas um pouquinho para despertar o interesse:

Zona da Ribeira

Foz

Parque da Cidade

Casa da Música

Igreja dos Cléricos

Pavilhão Rosa Mota

Como podem apreciar por estas quatro fotografias MANUEL VARZIM é um excelente fotógrafo.Natural

do Porto e despertou para a fotografia com apenas 15 anos. A qualidade dos seus trabalhos,

ajuda imenso a divulgar o nosso país.

Sugiro uma visita ao seu site onde podem conhecer mais trabalhos seus.

www.wix.com/mvarzim/fotografia

(Agradeço imenso a gentileza de Manuel Varzim

em me ceder estas fotos gratuitamente.)

Irene Alves

APELO AO INVENTOR – Célia Laborne

 

 

 

Já inventaram o trem, o avião, matéria-plástica e bomba atômica. Até celular, que de inventores, felizmente o mundo anda cheio.

 

A imaginação humana é incansável e copiosa. Despontam descobridores entre homens de ciência, entre mecânicos, químicos e artistas, figurinistas e físicos. Já se criou tanta coisa nova, boa ou má, que estatística alguma poderia enumerá-las.

 

Mas, convoca-se hoje, um técnico moderno e muito aperfeiçoado, um homem capaz de redescobrir. Sim.

 

– Quem quer inventar agora um silêncio sólido e confortante? Igual àquele silêncio antigo e amplo que, aos poucos, vai se tornando lenda?

 

Quem pode devolver o sossego à cidade da máquina e do torvelinho? Ao solo do trator e ao espaço do avião? Já transpuseram a velocidade do som mas quem o deterá?

 

De repente, a gente precisa muito do silêncio e não o encontra. Procura-se, indaga-se, mas tudo inútil. Grita-se por ele, faz-se um chamado, um convite, sempre em vão. Vai se comprá-lo, ninguém o vende.

 

– Que fizeram dele? Quem o levou?

 

Perdemos o carinho pelo silêncio e ele vinga-se furiosamente de todos os lados. Cada máquina moderna cobrou dele o seu preço.

 

Hoje, só o barulho anda solto, faz comício e ganha posto. Não o expulsam; pelo contrário, fizeram-no dono do mundo. Ele vem do martelo, do trator escandaloso construindo um prédio, corre maluco acompanhando os automóveis e motocicletas. Grita nas esquinas, brinca com as crianças, invadindo céus e terra. Faz ponto na cidade, no vizinho, na nossa casa. Entrou nas fábricas e nos auto-falantes, é chefe das ruas e das praças. Não nos deixou refúgio algum.

 

Até na música ele vai fazendo suas incursões as vezes perigosas, as vezes descaradas. Vem de sirenes policiais.

 

Suplantado, o silêncio retraiu-se. Procurou o interior, virou caboclo, passou de moda. Está agora escondido nos vales, encabulado, espezinhado, arredio.

 

Por isso é justo que se pergunte:

 

– Quem quer inventar um silêncio forte e gigantesco, que resista a tudo?

 

Um silêncio certamente atômico que calhe os ruídos, saiba repousar e não se envergonhe de aparecer numa cidade grande! Um silêncio provinciano que possa ser nosso ao menos por um dia de trabalho exagerado, ou numa noite teimosa de insônia?