Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Poque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo (1958)

retirado da página do Facebook de

Anabela de Araújo

O GRITO

obra-prima de Edvard Munch, O Grito, acaba de ser vendida pelo preço recorde, em leilão, de 120 milhões de dólares na casa Sotheby´s, tornando-se na obra-de-arte mais cara de sempre a ser leiloada. O que torna este quadro tão marcante na história da arte?

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© Edvard Munch, “O Grito”.

O quadro ” O Grito ” tornou-se uma das obras-de-arte mais reconhecidas em todo o mundo só suplantada pela “ Mona Lisa ” de Leonardo Da Vinci. Este último leilão veio comprovar esse facto. Mas o que tornará esta obra de arte tão famosa e apelativa? Será a misteriosa figura central do seu quadro? Será a dor intensa que este personifica ? Serão as cores tortuosas que nos tocam a alma? Será uma identificação que inconscientemente fazemos quando somos confrontados com a sua angústia ?

Ou adoramos “O Grito” por simplesmente ser um quadro humano. Terrivelmente humano. Humano no sentido em que nos toca, pois em algum momento das nossas vidas nos sentimos como a personagem. Como o artista. É-nos familiar.
Ao contrário de outras obras de arte que irradiam beleza mas igualmente uma certa plasticidade, um certo mundo de fantasia inatingível aos olhos do público, “O Grito” é profundamente emotivo. É, numa palavra, expressionista. É o auge do Expressionismo.

Edvard Munch é claramente um dos representantes máximos do movimento expressionista. Nasceu em Løten, na Noruega a 12 de Dezembro de 1863. Desistiu de estudar engenharia e decidiu ser pintor aos dezassete anos. Inscreveu-se na Academia de Desenho de Oslo em 1881, tendo logo nesse ano vendido dois quadros e pintado o seu primeiro auto-retrato. A morte, a efemeridade da vida e a melancolia atormentaram Edvard desde cedo. A sua mãe morrera quando tinha 5 anos e a irmã mais nova morrera com 15 anos. Foram traumas que sempre o acompanharam artística e pessoalmente. “ Pintei as impressões da minha infância, as cores esbatidas de um dia esquecido “, disse Edvard Munch.

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© Edvard Munch, “Primeiro Auto-Retrato”.

Em 1893 pinta “O Grito”, incluído na série “ O Friso da Vida”. É uma obra efectuada em óleo, têmpera e pastel em cartão de pequenas dimensões: 91 x 73.5 cm. Há uma série de factores que influenciaram Munch para a realização deste quadro. Desde já, um período em que esteve doente em Nice, em 1892. Edvard escreveu em seu diário o momento que por certo o inspirou a pintar a sua obra: “ Estava a passear cá fora com dois amigos, e o Sol começava a pôr-se – de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue – Parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma cerca – havia sangue e língua de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade – os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, de pé, a tremer de medo – e senti um grito infindável a atravessar a Natureza “.

Outras fontes literárias serviram de inspiração a Edvard nomeadamente a obra de Fiodor Dostoievski, um dos preferidos do pintor, e do filósofo Soren Kierkegaard. Deste último, a citação que a seguir transcrevo encaixa perfeitamente na visão pictórica que o quadro nos dá: “ A minha alma está tão pesada que nenhum pensamento nunca mais a poderá elevar, nem nenhuma batida de asas a conduz ao alto para o espaço celeste. Se alguma coisa a mover de alguma forma, ela apenas raspará o chão, como um pássaro a voar baixo após a tempestade. A opressão e a ansiedade estão a meditar rancorosamente no meu interior, pressentindo um tremor de terra “. Por conseguinte o quadro transmite-nos uma angústia intensa, quase um ataque de pânico visual perante um céu sangrento que poderia simbolizar o coração desfeito, a esperança perdida e o desespero que Munch sentia e o seu expressionismo com mestria nos revela.

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© Edvard Munch, “Madona”.

É curioso que existam várias versões diferentes deste quadro para além da obra de 1893. Em todas o carimbo emocional de Munch está presente para nos recordar que o lado negro da vida pode ser belo. Para além de “O Grito”, outra obra-prima do pintor é o quadro “ A Madona” de 1894/95, fabuloso retrato enigmático de uma mulher. Uma imagem extremamente sensual e ambígua. Edvard Munch escrevera sobre o quadro: “ Aquele intervalo em que o mundo pára no seu curso – Toda a beleza do globo está na tua face- Os teus lábios enrubescem tal como o fruto que está para nascer rebenta como se estivesse em sofrimento – O sorriso de um cadáver – Agora a vida dá as mãos à Morte – A corrente está ligada, unindo milhares de gerações dos mortos às milhares de gerações dos que ainda estão para vir “.

Voltando ao nosso tema inicial. “O Grito”, como curiosidade, foi roubado em 1994 em plena luz do dia na Noruega, tendo a policia conseguido recuperá-lo após um primeiro resgate de 1 milhão de dólares. Voltou novamente a sê-lo em 2004 juntamente com o quadro “A Madona” . Apenas passados dois anos os quadros foram recuperados, mas com danos físicos consideráveis.

A versão vendida no leilão de Maio era no entanto de Petter Olsen, cujo pai foi amigo e vizinho de Munch. Segundo testemunhas no leilão «Sete candidatos lutaram por mais de 12 minutos antes de o martelo descer e estabelecer o novo recorde mundial».

Em 1944 Edvard Munch morre e doa a sua propriedade à cidade de Oslo, onde está instalado o “ Munch-Museum” criado para celebrar o centenário do seu nascimento. Passados 68, anos a consagração mundial indiscutível de Edvard Munch tem lugar em Nova Iorque, assim como a sua oficial imortalidade. A possível resposta ao facto de esta pintura ser tão especial é dada sob o som de um martelar seco, preciso, e sentenciada com uma palavra ecoando sobre a sala apinhada “ Vendido! ”.

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© Edvard Munch.

«Na realidade a minha arte é uma confissão feita da minha própria e livre vontade, uma tentativa de tornar clara a minha própria noção da Vida…no fundo é uma espécie de egoísmo, mas não desistirei de ter esperança de que, com a sua intervenção, eu possa ser capaz de ajudar outros a atingir a sua própria clareza .» Edvard Munch

 

Fonte:OBVIOUS

 

Passado que se faz presente

Leio-te e releio-te;

Passado ausente se faz presente.

Todos aqueles momentos passam para hoje, …

Como se ontem tivesse sido hoje.

Encontro-te hoje em ontem!

Sonhos em conjunto vividos são hoje –

Cumprem-se as promessas de ontem, hoje!

Hoje é a realidade dos sonhos de ontem.

O tempo para quando o presente é.

Eterno presente faz o tempo parar.

Para o tempo no momento que és.

Contigo vivo num eterno presente,

Que faz o tempo parar!

Fernando Figueirinhas

extraído da página de Facebook de

Anabela de Araújo

OS DEAD CAN DANCE

Cânticos gregorianos, mantras do Oriente, música medieval, ritmos africanos e uma fabulosa voz de

contralto  de Lisa Gerrard. Rótulos não são com eles…já que tal riqueza musical é tão variada

que seria redutor e inadequado inseri-los em algum

stilo definido. Confusos? São os Dead Can Dance.

 

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© Dead Can Dance, Lisa e Perry.

O seu aspecto angelical e frágil faz-nos suspeitar que a doçura que transparece se prolongue na sua voz. Engano puro. Em cima de um palco Lisa Gerrard solta o diamante em bruto que carrega dentro de si : a sua voz. Dramática, profunda, vibrante. Lisa projecta a voz como um furacão sonoro que por onde quer que passe nos agita emocionalmente.

A banda reuniu-se em 2005 para uma tournée mundial. Foi um marco considerável pois teve o dom de juntar os dois fundadores e protagonistas dos Dead Can Dance desde a separação em 1998. Algo que curiosamente se repetirá para encanto dos muitos fãs. Está agendada uma nova tournée em finais de 2012 para promover o novo álbum Anastasis.
Lisa Gerrard e Brendan Perry, que já foram casados, voltaram a encantar e a espalhar melâncolia pelo público fazendo a audiência recordar os áureos anos 80. A banda começou precisamente em 1981 em Melbourne, Austrália. O casal mudou-se entretanto para Londres em 1982 com mais elementos, a saber: Paul Erikson na guitarra- baixo e Somon Monroe na bateria. No entanto a formação no Reino Unido mudará para Brendan Perry vocalista e guitarrista, Lisa Gerrard, vocalista, James Pinker nos teclados, Paul Erikson na guitarra-baixo e Peter Ulrich na bateria. Esta foi alternando consoante os anos de modo a ser actualmente o casal de sempre a restar como firme fundição primordial dos Dead Can Dance.

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© Dead Can Dance ao vivo.

Desde o primeiro álbum com o mesmo nome, em 1984, a sua sonoridade foi alternando bastante. Desde o negrume musical post-punk/darkwave do álbum Dead Can Dance e de alguma réstia negra no segundo álbum de 1985, Spleen and Ideal, ao neoclássico e medieval de álbuns como Aion de 1990 ao belíssimo Into the Labyrinth de 1993 com os seus mantras orientais e influências étnicas terminando novamente com fusões étnicas e divagações de world beat no último álbum Spiritchaser de 1996. Este Spiritchaser atingiu, a propósito, o número um no chart da «Bilboard World Music».

O inusitado nome da banda (A Morte pode Dançar) poderia-nos levar por caminhos de Gotham City e arredores obscuros… no entanto, Brendon Perry responde claramente: “ O significado por detrás do nome tem a ver com a procura da vida inerente aos instrumentos musicais, que por si só são objectos inanimados, mortos ”. Os Dead Can Dance “ressuscitam” um conjunto de instrumentos (tambores, o Yangqin tocado por Lisa, um dulcimer típico da China …) estáticos e através deles criam elos de espiritualidade e profundidade musicais intemporais. Tanto nos podemos sentir quais princesas\príncipes em castelos medievais assistindo a sonoridades da época dos banquetes de D. João II como podemos navegar pelas ruas de Bombaim tendo a sumptuosa voz de Lisa ou de Perry a guiar-nos nesta rota musical em busca da nossa alma, que se perde na beleza que esses instrumentos, tão bem dominados, libertam. Juntam-se os cânticos gregorianos, os mantras e os ritmos africanos e encontramos um riquíssimo conteúdo músical alternativo. Rótulos não são com eles…já que tal riqueza musical é tão variada que seria redutor e inadequado inserir os Dead Can Dance em algum estilo definido.

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© Dead Can Dance, Lisa e Perry.

Citando o estudioso musical australiano Ian McFarlane ” Os Dead Can Dance constroem paisagens sonoras de grandeza fascinante e beleza solene…com poli-ritmos africanos, folk galaico, cânticos gregorianos, mantras do Meio Oriente e Arte-Rock”. Só mesmo um exemplo da qualidade dos Dead Can Dance poderá demonstrar o que as palavras tentam mas são insuficientes tal é a qualidade inquestionável. Para os fãs e os curiosos, deixo-vos com Sanvean ao vivo do álbum Toward the Within. Lisa Gerrard no seu melhor, poderosa, emocionante e uns Dead Can Dance inesquecíveis. Uma marcante banda da música alternativa mundial.

Fonte_ OBVIOUS

Quero Chegar

Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.
Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.
Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.
E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.
Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.
Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em sequência.
E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.
Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.
O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.

Boris Pasternak
1956

retirado da página do Facebok

de Anabela de Araújo