N Í T I D A

Nítida,
de sombras e tristezas rodeada,
sobressaí,
mesmo à distância,
em cada gesto que da alma te procede,
a beleza nua
que eu avisto esmiuçada.

Longe de ti,
sou teu
na loucura do mais doce respirar,
há uma seta do cupido na brandura
que me chega
espelhada na força do teu olhar.

Perto de mim,
serás minha e serei louco a beijar
e a misturar
gota a gota do meu cheiro com o teu,
serás o meu Cavlo de Tróia
e o rastilho deste fogo ao poetar

sugiro uma visita ao seu blogue:
http://nimbypolis.blogspot.com


 

 

Devia Morrer-se de outra Maneira – José Gomes Ferreira


Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pòlen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

(retirado da página do Facebook
de Anabela de Araújo)