• Eu amo tudo o que foi

    *Fernando Pessoa

    amo tudo o que foi,Tudo o que já não é,

    A dor que já me não dói,

    A antiga e errónea fé,

    O ontem que dor deixou,

    O que deixou alegria

    Só porque foi, e voou

    E hoje é já outro dia.

    1931

    Poesias Inéditas (1930-1935)

    • (extraído da página do Facebook
    • de Anabela de Araújo)
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JOHN KEATS

A efemeridade da vida na poesia de John Keats

por Eli Boscatto em 20 de ago de 2012

Em um tempo em que tudo precisa ser muito rápido e que logo será esquecido, em que tentamos resgatar a intensidade das emoções enterradas na aridez do cotidiano, a poesia em suas mais variadas formas é o que costuma nos trazer um ar fresco para aliviar a alma. O amor e a beleza na poesia de John Keats estão além da imaginação e das fronteiras do tempo.

John Keats nasceu em Londres em 1795 e morreu em Roma em 1821. Teve uma vida breve e intensa, morreu com apenas 25 anos de tuberculose. Sua vida também foi marcada pela tragédia familiar, seu pai morreu quando ele tinha 8 anos e a doença também matou sua mãe e seu irmão. Apesar da insegurança financeira, Keats abandonou uma carreira promissora na medicina depois de muitos anos de estudo, para se dedicar à poesia.

Nos últimos meses de vida, John Keats foi para a Itália na tentativa de melhorar os sintomas da tuberculose, deixando para trás a noiva Fanny Brawne e sabendo que não voltaria mais. A história do romance obsessivo e da forte paixão entre os dois que dura apenas três anos, subitamente interrompida com a morte de Keats, é contada no filme “Brilho de Uma Paixão” produzido em 2009.

Filme “Brilho de uma Paixão” – história de amor real entre John Keats e Fanny Brawne

Keats parece ter sido bastante influenciado pela poesia grega clássica e algumas de suas poesias como “La Belle Dame sans Merci” e “Isabella or the Pot of Basil” tiveram grande influência sobre diversos grupos de artistas, entre eles a Irmandade Pré-Rafaelita e os simbolistas. No século XXI, as odes de Keats permanecem uma grande influência sobre escritores e críticos como as enigmáticas estrofes de encerramento de “Ode sobre uma urna grega” que lembram o poeta grego Píndaro em “Sonho de Uma Sombra.”

Trecho de “Ode sobre uma urna grega” (tradução de Augusto de Campos)
Ática forma! Altivo porte! Em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
– É tudo o que há para saber, e nada mais.

John Keats estabeleceu relações com outros autores e importantes figuras da cultura na época, como Percy Shelley, poeta e marido da escritora gótica Mary Shelley – lembram do filme “O Frankenstein de Mary Shelley?”. Foi lembrado pelo amigo John Hamilton Reynolds como aquele que teve “o maior poder na poesia, entre todos, desde Shakespeare” e no poema “Adonaïs”, Shelley homenageia John Keats após sua morte.

Trecho de “La belle Dame sans Merci (A Bela Dama sem Piedade)- tradução de Izabella Drumond
Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.
E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta

Obra “La Belle Dame sans Merci” de Walter Crane

“Acho que a poesia deve surpreender por um belo excesso e não pela singularidade – deve atingir o leitor como a formulação de seus mais elevados pensamentos e parecer quase uma lembrança. Se a poesia não surgir tão naturalmente quanto as folhas em uma árvore, é melhor que não apareça mesmo.” John Keats

Trecho de Hyperion (poema inacabado de John Keats)
Profunda na tristeza sombra de um vale,
Longe afundado a partir da respiração saudável de manhã
Longe do meio dia ardente, e estrela de uma véspera
Sáb cinza-hair’d Saturno, quieto como uma pedra,
Ainda como a rodada de silêncio sobre seu covil

Trecho de Endymion, um dos primeiros livros de poesia de Keats (tradução de Augusto de Campos)
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Algumas forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida

Selene – deusa grega da Lua e o pastor Endymion
Fonte:Obvious

É POSSÍVEL

Na vida tudo é possível

Até o que parece impossível…

Coisas invulgares acontecem sempre;

Até os amores impossíveis!

  • Sim, aqueles amores que lutaram

    Para o ser, contra tudo e contra todos.

    Até esses amores acontecem!

    Vidas impossíveis de o serem,

    Acontecem também a todo o instante.

    E tantas outras coisas acontecem…

    …É preciso querer muito,

    Para o impossível acontecer.

    É preciso querer que nada é impossível

    Para quem crer que o amor tudo pode!…

    Fernando Figueirinhas

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente
[o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais,
[se puder ser,

Ou até se não puder ser…

Fernando Pessoa

(extraído da página de Facebook

de Anabela de Araújo)

PERDE-TE EM AMAR

.

.

Esquece as feridas que trazes,

As mágoas que carregas,

As lágrimas derramadas.

Esquece tudo o que te pesa.

Derrama-te no amor dos teus abraços,

No carinho dos teus traços,

Na alegria do que trazes,

Nos beijos do que fazes.

Esquece-te de ti para te dares ao outro

Por inteiro,

Para sempre…

Amar é doar, esquecer e perdoar;

Amar é compreender o incompreensível;

Amar é ser-se para além de si.

Fernando Figueirinhas

(retirado da página de
Anabela de Araújo do
Facebook)

ALMAS GÉMEAS

Eu sou eu,
tu és tu
Duas fénix
…Entre a neblina
De penas cintilantes
Ao amanhecer

Duas almas,
Duas estrelas,
Duas formas de viver,
Dois sentidos despertos,
Para o mundo conhecer.
Perdidos no nada,
Encontrados no pensamento.
Pausas de bem-estar no arvoredo.
Dois corações,
Batendo abismados
Não!
Claro que não…
Tudo certo
Sabemos que temos razão
Somos duas almas,
Almas gémeas.

José Vieira com Madalena Santos

(retirado da página do Facebook
de Anabela de Araújo)