eu a beijei

Acabado o jantar, enquanto esperava a hora do jogo, deitei-me na cama e abri um romance de Gustave Flaubert, a minha preferida Madame Bovary. Desde a primeira vez que foi lida, ela se tornou um objeto de minha devoção.

O Beijo – Toulouse-Lautrec

Eu seria um de seus jovens amantes, fugia com ela e me transportava nas ruas, casas e coxas de Bovary. “Sacana essa Bovary”. “Infeliz Bovary”. “Esperta, essa filha da puta!” Sempre gostei das heroínas sacanas.

O que faria se vivesse tudo aquilo ou como seria se Bovary estivesse viva, nesta época, que impressões ela teria de nosso “modus operanti”. Evocá-la era um exercício intelectual divertido, e assim começa minha breve aventura literária, um delírio me ocorreu.

Ela estava em pé, em frente à janela da minha sala, em carne e osso. Vestia-se como Flaubert a descreveu em um dos capítulos do livro: vestido azul enfeitado com babados, pele branca, quase pálida, grandes olhos castanhos diretos. Os lábios não eram tão carnudos como pensei, mas a boca era bem desenhada. Os cabelos pretos deveriam ser longos a julgar pelo tamanho da trança. “Linda Bovary”- pensava, enquanto ela se voltou para mim. “Estás procurando alguma coisa?” Ao ouvir isso me apavorei. Estou louco.

O vulto de Bovary também falava, era ela, e como nunca tivesse existido, portanto, não estava morta. Se ela fosse um personagem histórico, o espiritualismo me ajudaria a compreender o fenômeno, raciocinava; mas como ela foi inventada por um autor do século XVIII, apenas a loucura seria a melhor explicação. “O que queres?”- perguntou novamente, andando em minha direção, com suas saias abundantes e a cintura fina – deixei de raciocinar.

Ela repetiu a pergunta, olhou em volta e se sentou na poltrona. No fim de alguns minutos, conversávamos. Lhe contei em que ano estávamos, país, cidade, dia. Respondi a cada pergunta tentando ser engraçado. “Você quer comer alguma coisa?”

“Sim, estou com fome.”

Enquanto comíamos, ela não parava de me perguntar sobre acontecimentos. Contei-lhe em resumo sobre guerras, arte, música, coisas que pensei que lhe interessariam. Ela me olhava atenta – “continue”, dizia-me, quando eu fazia alguma pausa; mas eu não podia mais, a idéia de estar louco falando com o vazio na cozinha me gelou.

“Gostaria de continuar, mas você precisa ir.”- disse-lhe gravemente.

“Não… me fale sobre o amor, sobre Deus, sobre liberdade…”

“Bem – engatei um discurso – o único direito que temos é a morte, e em alguns países a e matar. A liberdade é um bêbado equilibrando-se numa corda bamba. Ser jovem é a única religião; a beleza, a única virtude; o amor é uma doença curada com antidepressivos. Não podemos caminhar nas ruas à noite, durante o dia, com medo; estamos enjaulados nos anestesiando”.

(Pausa).

“No mais, minha querida, todos nós fazemos nossos jogos, às vezes somos peões, rainhas, reis, dependendo das posições… e você, ainda seria considerada louca. Temos a loucura toda classificada em termos e analogias mitológicas, que nos dizem o que está certo, o que está errado conosco, quem está triste, angustiado. E disso você não escaparia com certeza. Você e toda a maioria não batem bem, estão malucos, ou melhor, insanos, por causa de neuroses, medos e porque sonham demais ou de menos”.

(Ataque).

“E você continuaria sendo considerada uma puta, messalina, vadia, sinto-lhe dizer”.

“Desgraçado!”- ela disse, atirando-se em mim.

(Desistência).

Eu a beijei

Fonte: Obvious

A SOMBRA


Com a noite, ela vem, sorrateiramente,
Se esgueirando, pelas ruas, lentamente,
Procurando sua presa, como serpente,
É a sombra, presenciando um crime impunemente…

Quando a lâmina brilha no escuro,
Rasga a carne, golpe desferido, profundo,
Lambe o sangue, rindo alto, do moribundo,
Despreza a vida, sombra nua, correndo mundo…

Seu tempo já se esgota, mas, o amor ela procura,
Corpos brilham, iluminados pela lua,
Sorve o gozo alheio e como ladra, continua,
Encobre os amantes e traiçoeira, se insinua…

Na flor da noite, boca vermelha, pintada,
Ela se enrola em seu corpo, quase sem nada.
sombra sem rumo, inacabada…sabe que será morta…
Por sua rival que agora desponta…A fria, madrugada…
Lani

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http://zilanicelia.blogspot.com