JOHN KEATS

A efemeridade da vida na poesia de John Keats

por Eli Boscatto em 20 de ago de 2012

Em um tempo em que tudo precisa ser muito rápido e que logo será esquecido, em que tentamos resgatar a intensidade das emoções enterradas na aridez do cotidiano, a poesia em suas mais variadas formas é o que costuma nos trazer um ar fresco para aliviar a alma. O amor e a beleza na poesia de John Keats estão além da imaginação e das fronteiras do tempo.

John Keats nasceu em Londres em 1795 e morreu em Roma em 1821. Teve uma vida breve e intensa, morreu com apenas 25 anos de tuberculose. Sua vida também foi marcada pela tragédia familiar, seu pai morreu quando ele tinha 8 anos e a doença também matou sua mãe e seu irmão. Apesar da insegurança financeira, Keats abandonou uma carreira promissora na medicina depois de muitos anos de estudo, para se dedicar à poesia.

Nos últimos meses de vida, John Keats foi para a Itália na tentativa de melhorar os sintomas da tuberculose, deixando para trás a noiva Fanny Brawne e sabendo que não voltaria mais. A história do romance obsessivo e da forte paixão entre os dois que dura apenas três anos, subitamente interrompida com a morte de Keats, é contada no filme “Brilho de Uma Paixão” produzido em 2009.

Filme “Brilho de uma Paixão” – história de amor real entre John Keats e Fanny Brawne

Keats parece ter sido bastante influenciado pela poesia grega clássica e algumas de suas poesias como “La Belle Dame sans Merci” e “Isabella or the Pot of Basil” tiveram grande influência sobre diversos grupos de artistas, entre eles a Irmandade Pré-Rafaelita e os simbolistas. No século XXI, as odes de Keats permanecem uma grande influência sobre escritores e críticos como as enigmáticas estrofes de encerramento de “Ode sobre uma urna grega” que lembram o poeta grego Píndaro em “Sonho de Uma Sombra.”

Trecho de “Ode sobre uma urna grega” (tradução de Augusto de Campos)
Ática forma! Altivo porte! Em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
– É tudo o que há para saber, e nada mais.

John Keats estabeleceu relações com outros autores e importantes figuras da cultura na época, como Percy Shelley, poeta e marido da escritora gótica Mary Shelley – lembram do filme “O Frankenstein de Mary Shelley?”. Foi lembrado pelo amigo John Hamilton Reynolds como aquele que teve “o maior poder na poesia, entre todos, desde Shakespeare” e no poema “Adonaïs”, Shelley homenageia John Keats após sua morte.

Trecho de “La belle Dame sans Merci (A Bela Dama sem Piedade)- tradução de Izabella Drumond
Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.
E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta

Obra “La Belle Dame sans Merci” de Walter Crane

“Acho que a poesia deve surpreender por um belo excesso e não pela singularidade – deve atingir o leitor como a formulação de seus mais elevados pensamentos e parecer quase uma lembrança. Se a poesia não surgir tão naturalmente quanto as folhas em uma árvore, é melhor que não apareça mesmo.” John Keats

Trecho de Hyperion (poema inacabado de John Keats)
Profunda na tristeza sombra de um vale,
Longe afundado a partir da respiração saudável de manhã
Longe do meio dia ardente, e estrela de uma véspera
Sáb cinza-hair’d Saturno, quieto como uma pedra,
Ainda como a rodada de silêncio sobre seu covil

Trecho de Endymion, um dos primeiros livros de poesia de Keats (tradução de Augusto de Campos)
O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Algumas forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida

Selene – deusa grega da Lua e o pastor Endymion
Fonte:Obvious