E se eu fosse duas…?!!!

Conversando com uma amiga a certa altura ela diz-me: eu tal como o Fernando
Pessoa criei uma outra de mim mesma. Com ela converso de tudo, para ela transfiro
as minhas ansiedades, os meus medos, as minha saudades, e assim consigo ficar
um pouco mais leve e viver um pouco mais alegre…

Não é uma ideia estúpida de todo…Vou ver se consigo fazer o mesmo.

Lembrei-me da minha pequena Luana, aqui nas fotos, em duas imagens diferentes
mas com a mesma beleza.

A m/Luana está muito longe…eu tenho muitas saudades dela…vou transferir
“para a outra”

Há dias falando com ela ao telefone(o que faço com muita frequência) falava-lhe
de um acontecimento aqui, de que ela gosta, e ela com toda a naturalidade
disse: “eu também quero ir”…portanto(ainda bem que as crianças não têm
a noção das distâncias e das impossibiliidades…

Eu já não posso dizer “eu também quero estar contigo todos os dias…”
embora fosse o que me apetecia…Tenho que transferir para “a outra” esse desejo…

Arre, estou farto de semideuses!

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) com o Poema em linha reta

(extraído da página de Facebook
de Anabela de Araújo)

Se eu fosse eu(Poema para Clarice)

Se um dia eu fosse eu
Na certa saberia

De onde vinha eu

…Mas eu não sou eu
Sei que sou nuvem de fumaça
Amarga de nicotina
Densa de tempestade
Isso sim sou eu
Se eu fosse eu
Daria tudo que é meu
PALAVRAS
LETRAS
TOSSES
PROSA
Tudo eu daria ao Orfeu!
Se eu fosse eu…

Giselle Serejo in Se eu fosse eu, 2012.

(extraído da página de Facebook
de Anabela de Araújo)

JOSÉ RÉGIO

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

Fonte: http://triplov.com/poesia/jose_regio