(extraído, com a devida autorização
da página do Facebook
de Anabela de Araújo)

Vai, vende tudo o que tens, distribui pelos pobres e segue-me…
fartei da nuvem de pó do meu silêncio
ateu. cansei do monótono olhar
que desfaleceu. adentro de mim
já nem de lágrimas há que partilhar.

secaram na agonia das nascentes
fedendo do antro dum paul enxuto.

há uma réstia de fogo num tear de medo
em desassossego. há um novelo de espuma
que soergue da bruma.
e do alvorecer da força com que luto
eu venho aqui para vos dizer
estóico e resoluto
que hoje cansei de dizer sim:

ao sonho que pensara fosse teu
e talvez meu. à fome que dizes
ter que ser e que nos come.
ao olhar o infinito infindo
no degredo de ter que ser assim.
à piedade com que jogas esse teu olhar
pedinte envergonhado e triste.
à chaga universal que rasga
o horizonte da esperança
enquanto a pança dança
nos fundilhos da abastança.

hoje fartei de acenar que sim
ao descobrir que só tu fruis do direito
de sonhar. hoje já nem por mim
mas por tudo o que está escancarado
na nudez das cidades parcas de jardins.
chega de tanto mal do vil quebranto
por tudo que clama e fere tanto
não os teus mas os meus olhos porque os teus
são submissos aos jograis dos tempos
que dizem ‘ter que ser assim’.

não. eu decidi que custe o que custar
há que parar a sorte. eu não me rendo
à ferocidade dos chacais. que faço do despojo?
estou-me nas tintas para a formatação
ideológica. sei que cansei e já não há senão
a força de parar a fome que nos come
de encontro à farsa da razão que a todos dome.

fernando.rodrigues.almeida
28/10/2012

*Poeta angolano contemporâneo