Fonte: OBVIOUS

Para onde estamos indo?

por Rafaela Werdan em 06 de nov de 2012

Pra onde vão os vagalumes quando o dia chega?

E a música? pra onde vai a música depois que nossos silenciosos ouvidos abruptamente as engole como se em desespero quisessem aprender a falar? Para onde vai a tristeza não chorada? E as milhares de cores que os bebês enxergam nos primeiros meses de vida no mundo? Para onde vão essas cores depois que esses bebês crescem e perdem a capacidade de enxergar o mundo por conta própria? Para onde vai o prazer depois do orgasmo? Vai para o sangue, pele, coração ou para as teorias de atração da física quântica?

Para onde vai toda a gente na rua? Estão a andar em círculos? Para onde vai a ideia errada depois de criada a ideia certa? Vai para a alma da ideia certa e fica lá esperando para sair com o intuito de liberta-la de suas certezas inflexíveis? Para onde vão as nuvens? Será que vão para onde tempo está indo? E as escadas, afinal, servem para subir ou para descer? Pra onde elas vão? Para onde vai o amor depois que acaba? Que grande dúvida, o amor foi criado para durar pra sempre dizem os homens, mas por que uma hora ele nos abandona? Pra onde ele vai? Será que o vazio de todo o espaço ao nosso redor o engole? E os abraços que nunca pudemos dar pra onde vão? Ficam presos em nossos braços causando tensão nos ombros ou ficam eternamente debaixo de nossa perecível pele tentando cobrir-se do frio do solitário mundo sem abraços?

Para onde vai a memória do humano depois que ele morre? Para onde os insetos naturalmente querem ir? O que faz eles irem a algum lugar? O que faz eles andarem ou pararem? O que faz com que eles queiram se reproduzir, viver e morrer? Para onde vão os milhares de meteoros nascidos da desconstrução de alguma fatigada matéria? Estarão condenados a viajar sozinhos pelo vazio para todo o sempre? Quando o sempre terminar onde terão chegado? Para onde iriam as teorias religiosas sobre o paraíso se os homens conseguissem enxergar a magnitude dos mares, flores, vulcões, sementes e mulheres bem aqui nesse mundo? Será que finalmente chegariam ao paraíso sem ter que morrer para enxerga-lo de olhos fechados?

Por que o universo me faz fazer tantas perguntas? Ele quer ser desvendado antes de colidir com um outro universo e perder pra sempre a identidade atual como um cérebro perde sua identidade para o Alzheimer? Será que o universo quer ser salvo? Os cientistas dizem que ele está avançando rápido, está sendo puxado, talvez contra a própria vontade… E então pra onde estamos indo? Pra onde iriam o masculino e feminino se finalmente se compreendessem por completo? Seus corpos se
transformariam e virariam um só como no inicio dos tempos? Pra onde iria o tempo se parássemos os relógios? Pra onde vai o Adeus depois do último encontro? Será que ele senta em um banquinho escuro dentro da alma e fica lá esperando que alguém o resgate dele mesmo?

Incrível como nada nem ninguém pode nos dar respostas para quase todas essas perguntas. Nem o físico mais aplicado; nem o pastor mais devoto; nem o pássaro mais livre; nem os amigos mais confiáveis; nem o beijo mais amoroso; nem mesmo o confuso e esperto filósofo. Não há o que fazer! Nesse momento só temos o ar livre utilizando de nosso corpo para saber o que é prisão. Temos em nossa alma o vigor de uma estrela que acabou de surgir mas que logo explodirá. Temos a memória como única Deusa a ser idolatrada, pois sem ela não somos nada. E temos a consciência da morte para que possamos desfrutar ao máximo o maior milagre do universo: a vida! Uma vida cheia de ausências, e por isso mesmo, infinita em possibilidades.

SONETO A QUATRO MÃOS

Tudo de amor que existe em mim foi dado.

Tudo que fala em mim de amor foi dito.

Do nada em mim o amor fez o infinito

Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado

Tão fácil para amar fiquei proscrito.

Cada voto que fiz ergueu-se em grito

Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse

Nesse meu pobre coração humano.

Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano

Melhor fora que desse e recebesse

Para viver da vida o amor sem dano.

(Paulo Mendes Campos/Vinícius de Moraes)

(extraído,com a devida autorização
da página do Facebook de
Anabela de Araújo)


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