SETE LUAS – Natália Correia

537559_4417996282372_688229418_n (1)Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

(extraído da página de
Anabela de Araújo do
Facebook,com a devida
autorização.)

O BARULHO DA CAROÇA

carroçaCerta manhã, o meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no campo e eu aceitei com prazer. Ele deteve-se numa clareira e depois de um pequeno silêncio perguntou-me:
Além do cantar dos pássaros, estás ouvindo mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
– Estou ouvindo um barulho de uma carroça.
– Isso mesmo, disse o meu pai, é uma carroça vazia…
Perguntei ao meu pai:
– Como é que pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?
– Ora, respondeu meu pai. É muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia vai a carroça, maior é o barulho que faz.

Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimidar), tratando o próximo com grossura inoportuna, prepotente, interrompendo a conversa de toda a gente, e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai dizendo:

Quanto mais vazia vai a carroça, mais barulho ela faz…

(extraído da página do Facebook
de Anabela de Araújo, com a
devida autorização.)

Morri em Ti… de Rosa Maria

rosa maria

Morri meu amor…morri em ti…tão cansada de mim

Fechei as portas aos sonhos…tirei a esperança à vida
Fiquei tão só…tão perdida meu amor…perdida de ti
Fui um instante…foste um momento…uma ferida

Fui gaivota por te saber ausente…procurei-te no mar
Seja eu a eterna quimera…seja eu o amanhecer da terra
Por te saber presente…parti de mim…mas desejei ficar
Fui um sonho…onda ou maresia…fui em ti flor singela

No cansaço dos dias…talvez te espere ainda meu amor
Antes de adormecer…talvez te procure…no anoitecer
Na minha solidão…talvez te procure no sorriso da dor
Talvez te espere ainda…num doce e suave amanhecer

A ti entrego…os meus versos de amor…a minha dor
O eco da minha voz…a minha eterna tristeza…as mãos
Os meus sonhos…o meu corpo frio…e todo o meu amor
Na sombra da tua ausência…meus despojos repousarão

Procuro o teu rosto…perdido na bruma do meu olhar
Nas minhas mãos vazias…nos meus braços sem mim
No silêncio da noite…no frio da madrugada…no Luar
Procuro-te meu amor…nesta solidão que não tem fim

Se ouvires o silêncio…sou eu meu amor a chamar-te
Se sentires no teu corpo calor…é o meu que te quer
Se sentires os teus olhos chorarem…sou eu a olhar-te
Se ouvires um lamento…são os meu braços de mulher

Escrito por : Rosa Maria

(extraído, com a devida autorização
da sua página do facebook.
Seu blogue: http://rosasolidao.blogspot.com )

O HOMEM QUE LÊ – Rainer Maria Rilke

Homem que LêEu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde… em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in “O Livro das Imagens”
Tradução de Maria João Costa Pereira
Fonte: http://www.citador.pt