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Em meados de maio, passa a estar disponível nas livrarias a edição portuguesa da revista literária Granta. Portugal junta-se assim à rede mundial do “magazine da nova escrita” e o jornalista Carlos Vaz Marques, diretor da revista, falou à Agenda Cultural sobre o projeto que, no próximo dia 24, vai ter festa de lançamento em Lisboa.

Como surgiu a ideia de trazer a Granta para Portugal?
Terá começado quando descobri haver no Brasil uma edição da Granta, o que me levou a pensar ser possível editar a revista fora da língua inglesa. Simultaneamente, a Barbara Bulhosa, da editora Tinta-da-China, já me tinha desafiado no sentido de virmos a editar uma revista literária e, quando eu chego do Brasil entusiasmadíssimo com aquela descoberta, começámos a projetar a hipótese de fazer uma Granta portuguesa. Entretanto, o tempo passou e não falámos mais no assunto mas, em 2012, a Bárbara vai ao Rio de Janeiro e conhece, por um mero acaso, o editor internacional da revista, o norte-americano John Freeman. Pode-se dizer que, a partir dai, começou a ser viável concretizar a ideia…
Beneficiando do processo de internacionalização da revista…
Que terá começado há uns anos, presumo que, com a Granta em língua espanhola. Agora, há mais uma série delas, nomeadamente a chinesa, lançada em abril deste ano, e a turca, que irá sair também este mês. Se juntarmos às edições já referidas, a italiana ou as nórdicas, vemos estar a formar-se uma família global Granta.
De que modo é que esta “globalização” pode ser importante para os autores portugueses?
Em muito, garantidamente. A constituição desta “família global” implica a circulação dos textos pelas várias edições internacionais, abrindo caminho a que mais escritores portugueses cheguem a outras línguas, a outros leitores e a outras latitudes. É também nosso objetivo vir a fazer uma edição com autores portugueses que possa ser replicada integralmente na Granta de língua inglesa, à semelhança do que foi feito num número que fez um best of de 20 jovens escritores brasileiros.
E, no panorama literário português, que relevância poderá ter a Granta?
Acredito que possa vir a ser muito relevante, porque a Granta desafia os autores a escrever sobre um tema, algo que a maioria gosta, se bem que seja necessário um “empurrão” para isso. Ao lançarmos o desafio estamos a funcionar como um carburante, um estímulo externo à criatividade – sobre isso, ocorre-me sempre a resposta dada por Cole Porter quando lhe perguntaram o que é a inspiração: “é o telefonema do produtor”. Assim, e já nesta primeira edição, temos textos excelentes que certamente nunca existiriam se não os tivéssemos encomendado aos autores.
Tenciona-se também que a revista possa ser uma primeira montra para potenciais escritores?
Numa primeira fase, o objetivo é convidar autores mais ou menos conhecidos que julgue merecerem atenção. Nesta edição temos, por exemplo, a conceituada Hélia Correia, com um texto muito atual chamado Intervencionados, e um jovem autor, o Valério Romão, que editou recentemente o romance, Autismo [Abysmo, 2012]. Mais adiante, tencionamos editar um número, à semelhança do que se faz na Granta de língua inglesa, com textos dos mais promissores talentos portugueses até aos 40 anos. Para esse efeito, estaremos abertos a receber textos que, posteriormente, serão colocados à consideração de um júri de seleção.
A Granta portuguesa vai seguir a fórmula das edições internacionais?
No formato é idêntica à Granta de língua inglesa, incluindo textos inéditos em prosa e verso e portfólio fotográfico, sem recensões literárias nem entrevistas, pelo menos no formato mais tradicional. Como acontece com as edições em outras linguas, o contrato estipula que cerca de metade da revista inclua conteúdos provenientes da “casa mãe”. Ao contrário do que possa parecer, isto não é uma desvantagem, até porque não têm de ser textos da última edição. Deste modo, poderemos publicar, pela primeira vez em português, textos extraordinários do baú da Granta assinados por escritores como Salman Rushdie, Saul Bellow, Martin Amis…
E por falar em notáveis, este número inaugural inclui inéditos de Fernando Pessoa…
Foi uma circunstância feliz. Há uns tempos, quando entrevistei o Jerónimo Pizarro [investigador colombiano, especialista em Pessoa] perguntei-lhe quantos inéditos ainda existiriam no espólio pessoano, tendo respondido que uma grande parte da poesia inglesa nunca foi tocada e nos mais de 30 mil papéis encontrados talvez só metade tenha ainda sido tratada. Mais tarde, voltámos a falar e desafiei-o a indicar-me se existiria matéria entre os inéditos que se poderia enquadrar no espírito da Granta. Apareceu-me então com cinco sonetos inéditos e mais três que têm uma leitura diferente da que até agora conhecíamos.
Como tema para esta edição, o “Eu”. E Pessoa era um homem de múltiplos “Eus”…
O Pessoa, sendo provavelmente o autor da literatura universal que mais radicalmente tratou a questão do “Eu”, acaba por ser um excelentíssimo representante do tema. Mas, o “Eu” pareceu-me ideal para começar, não só pelas potencialidades do tema como pela identidade que propomos afirmar na revista, isto é, cada texto publicado é efetivamente obra de quem o assina no sentido da afirmação de aspetos subjetivos e não ligados a questões de grupo.
A capa e o portfólio deste número são da autoria de Daniel Blaufuks. Será a Granta também um espaço privilegiado para outros criadores que não somente os escritores?
É nossa intensão que sim. Cada número vai ter um portfólio concebido por um fotógrafo, se bem que possa pontualmente vir a ser da autoria de um ilustrador. À semelhança das edições internacionais, e à parte do portfólio fotográfico, cada texto será acompanhado por uma pequena ilustração da autoria da Vera Tavares.
Este é o momento para lançar em Portugal uma revista literária?
Diria que, acima de tudo, este é o momento para afirmar que estamos vivos. O risco é elevado, mas acreditamos que cada número vai estar à altura do nosso sonho e da nossa vontade.

Informações úteis:
A Granta é uma revista literária de periodicidade semestral, com a chancela Tinta-da-China. O preço de capa é 18 euros.

Ficha Técnica

Por Frederico Bernardino | fotos de Humberto Mouco

Autor: sinfoniaesol

Viver é o mais importante de tudo e se for com amizade, amor e saúde, que mais pedir?Viva a Vida!!!

Um pensamento em “”

  1. Olá, Irene!

    Desconhecia que existia tal revista, mas tudo o que seja cultura nunca é demais.

    Bom domingo.

    Beijo, com estima.

    Luzes e Luares -novo poema. Obrigada!

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