Quando Fernando Pessoa foi mulher

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Fonte: raul albuquerque-28/05/2013(OBVIOUS)

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Porque entre os muitos “eus” de Fernando Pessoa – quem diria –

existiu uma mulher!Fernando Pessoa é, sem dúvidas, o maior nome da poesia portuguesa no século XX. Mas seu legado destaca-se pelo uso magistral da heteronímia na sua obra poética. Seus heterônimos não cobriram o seu nome e, dentre eles, três destacam-se: Álvaro de Campos (o futurista), Alberto Caeiro (o mestre campestre) e Ricardo Reis (o classiscista). Ainda é possível destacar Bernardo Soares, semi-heterônimo, autor de “Livro do Desassossego”.

Mas já são mais de 120 heterônimos (completos ou incompletos) detectados em toda sua obra.

Mesmo com esse retrospecto, ainda é estranho crer que Fernando Pessoa, o poeta português, tenha criado um heterônimo feminino, mas, sim, ele escreveu usando um eu-lírico feminino e com um nome impossivelmente mais comum: Maria José.

E Maria José aparece na obra pessoana através de um texto de sensibilidade arrebatadora: “A carta da corcunda para o serralheiro”. O texto assume o formato proposto no título e começa com um tom de despedida, de última carta – o lamento por existir, tão comum na obra do poeta.

“O senhor nunca há de ver esta carta. Nem eu a hei de ver pela segunda vez, porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe, ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.”

A autora da carta constantemente se retrata do que disse, impondo sua condição “gauche”, sua posição de “ninguém” (ela diz: “sou doente, e nunca tive alma”):

“Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela, mas não tenho ciúmes de ti, porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes.”

Pessoa trata calculada e poeticamente do amor platônico e do valor desse amor. Maria José, mulher corcunda que vive debruçada sobre a janela a observar a rua, vincula sua insipiente felicidade à passagem do serralheiro pela rua.

“O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim, como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.”

Ainda na introdução, Maria tenta apresentar-se e não consegue desvincular sua imagem da imagem que os outros constroem sobre ela. “Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém.”.

A carta é constantemente hesitante. As correções a si própria dão conta da incerteza e inexperiência da corcunda no campo dos sentimentos e das palavras. Pessoa surpreende no uso da ingenuidade e na ironia com os sentimentos de Maria, esse traço fica bem explícito no seguinte trecho:

“Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.”

No escrito de Pessoa, até os ninguéns amam. Seria essa – nas palavras de Bernardo Soares – a traição ao próprio ser. E ainda os ninguéns são tão nulos que até a morte lhes é negada.

“Eu, às vezes, dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria…”

Maria reveste-se de sua visão coitadista e Pessoa parece ironizar constantemente o sentimento puro de Maria, a dependência causada pelo amor, o condicionamento da felicidade a um outro alguém. E o serralheiro, imagem sugerida na carta, não chega a ser um deus, mas um homem absolutamente comum – só não é comum para a corcunda da janela.

“Se o senhor soubesse isto tudo, era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai, se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.”

O fim da carta fala por si só… A carta com destinatário, mas que nunca chegará ao seu destino. À corcunda importa apenas que seja escrita para não “abafar”. Afinal, Pessoa revê a importância das cartas de amor – num outro heterônimo tratadas como “ridículas”.

“Adeus, senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a ti. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir, porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aqui tem e estou a chorar.

(Se quiser ler a carta na íntegra vá a

http://viciodapoesia.wordpress.com

)

Gosto muito da Irlanda

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Fiquei fascinada quando a visitei pela primeira vez.

A Irlanda acabaria por se tornar uma referência na minha vida. Pela

primeira vez que lá fui, com quem fui, o que lá vivi, enfim tudo se

mantém muito gravado na minha memória.

Acabaria por lá voltar mais vezes. E a minha família que lá estava

foi aumentada com mais família, que de cá, por causa da crise, para

lá teve que ir.

Hoje penso, que possivelmente o meu final de vida irá ser na Irlanda.

Não me importaria de ser lá enterrada, porque se nasci em Portugal,

gosto da Irlanda pelo coração. E sempre lá quero voltar.

Irene Alves

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Histórias do Primeiro Sexo: Marilyn Monroe e Virgínia Woolf
por Wuldson Marcelo em 19 de maio
(Fonte:OBVIOUS)

Marilyn Monroe e Virginia Woolf, mesmo com todas as diferenças, obtiveram fama, sucesso e alcançaram a posteridade, mas enfrentaram o preconceito e todas as intempéries provenientes do machismo. Ainda assim compartilham frustrações e tragédias que se comunicam.

Marilyn Monroe e Virginia Woolf. Marilyn e Virginia, mulheres de vidas atribuladas, que lutaram por espaço e reconhecimento e que encontraram finais trágicos. Tais percursos são resultados de suas histórias que as aproximam, mesmo que de maneira contestável. As carreiras que tiveram e as escolhas que fizeram para alcançar a notoriedade são pontos que as afastam. Porém, ambas estão unidas no modo como foram exauridas por um mundo hostil à força, ao talento e ao magnetismo feminino. Friedrich W. Nietzsche escreveu a certa altura de seus registros filosóficos que, “Quando as mulheres possuem virtudes masculinas, não há quem resista a elas; quando não possuem virtudes masculinas são elas que não resistem”, o que leva a concluir que as tão aclamadas qualidades femininas de delicadeza, generosidade e de capacidade de resolver conflitos por intermédio dessas duas qualidades citadas, tão alardeadas pelo mercado de trabalho (como algo valorizado por ele), são na verdade forma de consagrar uma ilusão: a da humanização de um sistema bruto em sua essência, o do capitalismo. Um sistema que se apresenta cada vez mais competitivo (que exige especialistas flexíveis), individualista e que abandona seus retardatários. Ou seja, a sensibilidade perde espaço para um tratamento “rés-do-chão”. Neste mundo, sobrevivem Margareth Thatcher, Dilma Rousseff, Angela Merkel etc., mulheres que na aparência não trazem elementos de simpatia ou sedução. Essas líderes políticas contribuem para a sustentação das relações de poder baseadas em princípios que mantêm os mais fortes (a representação de um mundo engendrado por homens brancos judeu-cristãos oriundos do Mediterrâneo que encontram o imperialismo estadunidense liberal capitalista) no topo da cadeia alimentar político-econômica.

Marilyn e Virginia pertencem a um grupo particular, mas muito comum: a de mulheres femininas que possuíam uma força interna sistematicamente fragilizada por severas estruturas de um mundo conservador, impositivo, pungente em suas interdições, porém hipócrita, pois objetificava à mulher, tornando-a dona de casa ou realizadora de fantasia sexual, ao mesmo tempo em que extraía dela qualquer coisa de apelo comercial. Marilyn e Virginia foram pessoas distintas com destinos semelhantes. Virginia foi uma das principais escritoras e intelectuais do século XX, feminista que sempre pensou a condição da mulher na sociedade ocidental. E Marilyn um mito de beleza e sensualidade eternas. No entanto, tais definições as enclausuram na superfície daquilo que aspiraram e realizaram, cingem-nas aos mil e um detalhes que percorrem nosso imaginário sobre essas mulheres públicas.

Marilyn Monroe e Virginia Woolf compartilham frustrações e tragédias que se comunicam: ambas sofreram abuso sexual na infância, ambas não poderão realizar o desejo de se tornar mãe e, no fim, ambas cometeram suicídio, depois de algumas tentativas fracassadas. Marilyn, aos 36 anos, vitimada por uma overdose de medicamentos (ingeriu em excesso barbitúrico); a sua morte é cercada por mistérios e teorias conspiratórias devido ao seu caso sexual com os poderosos irmãos Kennedy, John e Bob, respectivamente, Presidente em chefe e senador da república (ambos assassinados no auge da carreira política). E Virginia, aos 41 anos, ceifou sua própria vida nas águas geladas do rio Ouse, na Inglaterra, após encher os bolsos com pesadas pedras que a impediram de submergir. Ambas estiveram ligadas, também, pela depressão, por uma hipersensibilidade e por inúmeros medos.

Segundo o principal biógrafo de Virginia Woolf, Quentin Bell, que era seu sobrinho (filho de sua irmã Vanessa), a escritora era uma mulher competitiva, porém insegura, que nutria receios da crítica, mas que criou obras memoráveis, mesmo que acossada por esse pavor da reprovação. Ainda, conforme Bell, Virginia não percebia valor em escritores de sua época – pelo menos não publicamente –, como, por exemplo, James Joyce; talvez por revanchismo ou por uma análise aguçada. A autora de obras-primas como “Mrs. Dalloway” (1925), “Passeio ao Farol” (1927) e “As Ondas” (1931), teve relações, ou melhor, ligações românticas com mulheres, mas, segundo seu sobrinho-biógrafo, não houve consumação do desejo carnal com nenhuma delas, pois Virginia entendia o intercurso sexual como algo quase abominável. Porém, apesar disso, nunca afastou de si a vontade de ser mãe. Consta que Leonard Woolf, marido de Virginia e sócio dela na Editora Hogarth Press, considerava temerário uma mulher com a instabilidade psicológica da escritora ter filhos. Apesar de todas as frustrações, Virginia deixou uma enorme contribuição para o desenvolvimento do fluxo da consciência na literatura, e para a crítica da situação da mulher em uma civilização opressora vários ensaios e resenhas.

A deslumbrante atriz de “Nunca Fui Santa” (1956) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) foi uma mulher problemática, melancólica e ávida pelo reconhecimento de seu talento artístico. De certa forma, Marilyn construiu (ao mesmo tempo em que uma Hollywood, uma mídia, um público estavam à procura de algo etéreo, mas de carne e osso, para perseguir e adorar) sua imagem sobre as vantagens de ser tratada como um símbolo sexual, entretanto, à margem da respeitabilidade como atriz que sempre pretendeu (e merecia por atuações como em “O Príncipe Encantado”, de 1957, ao lado de Laurence Olivier, que lhe rendeu o prêmio “David di Donatello”, maior honraria do cinema italiano). Marilyn Monroe fora (é) a essência do sexo nas telas de cinema e, diferentemente de Virginia Woolf, a exuberante loira, casada três vezes, gostava de sexo e não prescindiu dele como arma, pois abusava de seus atributos físicos para conquistar e de sentir desejada. Segundo Anne Plantagenet, “Marilyn Monroe vai para a cama com todo mundo. Enquanto seu corpo ainda puder servir. Ela precisa ter a prova de que os homens ainda a desejam” (Marilyn Monroe. Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 193). No entanto, o furacão sexual Marilyn escondia uma proeminente inteligência (no caso, a indústria do cinema, os tabloides e a voracidade da cobiça masculina pelo corpo da atriz geravam o bloqueio para tal aparição), a necessidade de ser amada e de não ser apenas uma “boneca de carne”. Na verdade, não escondia, gritava por essas necessidades. Mas num mundo movido por mitos e escândalos que a alimentam, a indústria das celebridades encontrou em Marilyn Monroe um “prato cheio”. A mulher frágil, elegante (sim, Marilyn, na vida real, era uma pessoa invulgar), inteligente (que não conseguiu provar isso aos seus detratores e aos milhares de fãs que cultuaram apenas o símbolo da beleza) e deprimida recebeu a possibilidade de uma releitura – e o mito ganhou novos componentes para reafirmar seu status de imortal – com o lançamento, em 2010, de “Fragmentos – Poemas, Anotações e Cartas de Marilyn Monroe” (no Brasil, editado pela Tordesilhas), que apresenta os pensamentos, as poesias e a visão de mundo da atriz. Além mostrá-la como leitora de Albert Camus, Joseph Conrad, James Joyce entre outros. Uma chance para compreendermos que as aspirações de alguém nem sempre encontram ressonância na vida em que se pôde/conseguiu construir. Marilyn fora vítima do star system, assim como eleita por ele, e quando sua privacidade confundiu-se com sua figura pública seus traumas e desejos incorporaram-se à mulher frágil, na qual a maioria só enxergava futilidade e apelo sexual. No fim, os traumas venceram os desejos.
Simone de Beauvoir, em “O Segundo Sexo”, escreve que, “O privilégio econômico detido pelos homens, seu valor social, o prestígio do casamento, a utilidade de um apoio masculino, tudo impele as mulheres a desejarem ardorosamente agradar aos homens. […] Disso decorre que a mulher se conhece e se escolhe, não tal como existe para si, mas tal qual o homem a defini” (Ed. Nova Fronteira, s/d, p. 177). No mundo contemporâneo, centenas de mulheres quebram diariamente esse paradigma erigido num mundo masculino denunciado com perspicácia por Simone de Beauvoir. Virginia Woolf não percebeu no casamento uma fuga, um trunfo ou uma necessidade, na verdade, ela se recusava a casar. Porém, mais tarde uniu-se a Leonard, em quem encontrou um companheiro. Marilyn Monroe imaginava o casamento ideal, perseguiu-o e encontrou três matrimônios que faliram ruidosamente. Virginia procurou romper barreiras e derreter grilhões que obstruíam o reconhecimento da vocação feminina para qualquer atividade que uma mulher pretendesse exercer. Já Marilyn buscava a aceitação, um olhar de compreensão e um amor cúmplice, afetivo, que saberia conviver com a mulher complexa, frágil e autocrítica e com o símbolo sexual que planejava aos poucos superar esse status.

Ambas, Marilyn e Virginia sabiam que pertenciam a um mundo em que o homem assumia a prerrogativa (gerada pela imposição física – discursiva, certamente, mas os argumentos eram respaldados no apelo da força corporal) pelas escolhas das mulheres, mas elas, cada uma a seu modo, encontraram formas de se infiltrar nesse universo, que controla os desiderativos femininos, marcas de uma potência criadora (Virginia) e de sedução que vai além da carga erótica de um mito (Marilyn). Contudo ambas eram depressivas, solitárias, possuíam medos irreversíveis e sucumbiram à atração pela morte. Mas esse ponto elevou-as ao panteão das mulheres que deixaram um registro de vida e obra que desmascara um mundo avesso e adverso à fragilidade da beleza e à beleza da fragilidade (tanto a inteligência quanto a beleza feminina são vistas com desconfiança, e, geralmente, dissociadas por esse gigante devorador de sonhos que é o capitalismo, o que vale dizer, um sistema cruel que engendra interdições e pune àqueles que se recusam a render-se a ele).

Nota de curiosidade: Em 1939, Virginia Woolf se encontrou com Sigmund Freud num salão do bairro de Hampstead, em Londres. E Marilyn Monroe consultou-se com Anna Freud, filha do próprio pai da psicanálise.

rosa mariaSilêncio…

De repente há tanto silêncio…como um grito mudo sepultando o último gemido…a última letra dum poema…o último nome…o derradeiro verso…a última rosa morrendo…o último sonho de amor…o derradeiro grito de vida.
E de repente há tanto vazio nos meus passos…tanta rua escura…tanto labirinto sem saída…tantos gritos sem voz…tantas sombras no meu olhar…tantos fantasmas na noite…tantas noites nos dias…tantos sonhos morrendo e de repente eu morrendo neste vôo para além do sonho…neste vazio para além dos braços…perto do nada e para além de tudo.
E eu sempre esperando à margem da vida…para além da dor…para além das mãos…nuas…cheias de nada…vestidas de vento…esperando…apenas esperando na escuridão das sombras chorando silêncios.
E de repente o amanhecer anoiteceu envolto nas brumas do meu olhar que se fez rio esperando um navio que nunca vai chegar…uma história de amor que nunca vai ser escrita…um poema que nunca vai ser cantado.
E de repente as palavras fizeram-se silêncio…o silêncio fez-se pranto…o grito fez-se vácuo e eu esperando entre a luz e a escuridão entre e vento e a tempestade no cais da ilusão…perdida.
E de repente o meu corpo fez-se grito e vestiu-se de ausência no abraço eterno da noite…perdido no esquecimento…fez-se espera no cansaço do tempo…vestido de abandono e morto antes da morte.
E de repente o céu azul escureceu…o tempo vestiu-se de luto e o silêncio dedilhou uma marcha fúnebre…os poemas calaram-se…as palavras entoaram um pranto triste…a noite veio adormecer no meu corpo e as sombras…as minhas tristes sombras dançaram a última valsa antes do fim…em silêncio.

Escrito por : ROSAMARIA

(querida madrinha deste blogue)