Conversando…

EK23

Alguns visitantes dos meus blogues têm-me sugerido que
colocasse menos posts para obter maior número de comentários,sugestões que agradeço.

Sucede, que a finalidade dos meus blogues não é alcançar
um x número de comentários,embora fique feliz com as
visitas e os comentários que colocam.

É para que eu coloque tudo aquilo que gosto, tudo o que
me enviam (e tenho tantos amigos/as que o fazem, a quem
estou imensamente grata) portanto “os meus blogues são
o que eu gosto e quis guardar”, apenas isso.

Partilho com todo o gosto com quem os visita, e se não
forem imensos, os que vêm são mesmo amigos e isso é o
melhor de tudo.E estou-lhes muito grata.72D7CBE4DC51DD717F30BC7EF0AC3741

Poema de Nietzsche no Zaratrusta

jardim

Com o ar privado de luz,
Quando já do rócio o consolo
Escorre para a terra,
Invisível, inaudível também –
Pois leve calçado traz,
Como toda a suavidade que alivia, o rócio consolador –
Lembras-te, então, lembras-te, coração ardente,
Como, outrora, estavas sequioso
De lágrimas celestes e gotas de orvalho?
Crestado e cansado, andavas sedento,
Enquanto, por amarelos carreiros na erva,
Maldosamente, os olhares do sol vesperal,
Passando entre árvores negras, à tua volta corriam,
Embraseados olhares do Sol, ofuscantes malignos.

Pretendente à verdade? Tu? – escarneciam –
Não! Apenas um poeta!
Um animal, e astuto, rapinante, furtivo,
Que tem de mentir,
Que tem, ciente e voluntariamente, de mentir:
Cobiçando a presa,
Mascarado de várias coresMácara para si próprio,
Para si próprio presa…
Isto, o pretendente à verdade?
Não! Apenas louco! Apenas poeta!
Proferindo só discursos confusos,
Gritando desordenadamente por detrás de máscaras de bobo,
Andando por cima de mentirosas pontes de palavras,
Por cima de arco-íris multicolores,
Entre falsos céus e falsas terras,
Vagueando, pairando por aí…
Apenas louco! Apenas poeta!

Isto, o pretendente à verdade?
Nem imóvel, rígido, liso, frio,
Feito estátua,
Tornado num pilar de Deus,
Nem erguido diante de templos,
Qual guarda-portão de um deus…
Não! Hostil a essas estátuas da verdade,
Mais à vontade em qualquer deserto que diante de templos,
Com a travessura dos gatos,
Saltando por qualquer janela –
Depressa! – para qualquer casualidade,
Farejando toda a floresta virgem,
Farejando obssessiva e ansiosamente,
Para que nas selvas,
Entre feras sarapintadas,
Corresses pecaminosamente sadio, variegado e belo,
Com beiços ávidos,
Venturosamente escarninho, infernal e sanguinário,
Andasses rapinando, insidioso, falso…

Ou, tal como a águia, que longa,
Longamente, crava os olhos nos abismos,
Nos seus abismos…
Oh! como elas descem,
Lá para baixo, lá para dentro,
Enroscando-se em profundezas cada vez mais fundas!
Depois,
Subitamente, sempre a direito,
Num vôo tenso,
Atiram-se aos cordeiros,
Caindo bruscamente, famintas,
Ávidas de cordeiros,
Hostis a todas as almas de anho,
Envaidecidas contra tudo o que pareça
Ovino, com olhos de cordeiro, com lã encaracolada,
Pardo, com a benevolênca do borrego e da ovelha!

Assim,
Próprios de águia, próprios de pantera,
Sã os anelos do poeta,
São os teus anelos sob mil máscaras,
Ó louco! Ó poeta!

Tu, que viste o homem,
Tanto deus como carneiro,
Despedaçar o deus no homem
Tal como o carneiro no homem
E rir, despedaçando-os…

Essa, essa é que é a tua felicidade!
A felicidade duma pantera e duma águia!
A felicidade dum poeta e dum louco!

Com o ar privado de luz,
Quando já da Lua o crescente,
Verde entre vermelhos pupúreos
E invejosos, entra furtivamente,
Adverso ao dia,
A cada passo, secretamente
As cortinas de roseira ceifando
Até que caiam,
E sumam, pálidas, pela noite abaixo.

Assim eu proprio caí, outrora,
Do meu delírio de verdade,
Dos meus anelos diurnos,
Cansado do dia, doente da luz,
Caí para o fundo, para a noite, para a sombra,
Por uma só verdade queimando
E só dela sequioso:
Ainda te lembras, coração ardente, lembras-te
Como, então, tinhas sede?
Que eu seja desterrado
De toda a verdade,
Apenas louco!
Apenas poeta!

NIETZCHE, F. W. “Canto da melancolia, quarta parte, item 3″ In: Assim falou Zaratustra. Tradução Paulo Osório de Castro. Lisboa: Relógo D’água, 1998, p. 349-352.