Meu corpo despido… de Rosa Maria

corpoMeu corpo despido…entrelaçado nos lençóis de mágoa…tão ausente e tão presente este fio que me amordaça…este gelo que em mim fica…tão ardente e tão carente este rio que por mim passa…carregado de ilusão de um desejo já ardido…ateando o silêncio que deságua no cais abandonado desse sonho já perdido e embalando a nudez desse corpo noite.
Preso nesses lençois…nas margens desse rio que sou…procurando o teu corpo nos meus braços carregados de ausências…vestidos de Dezembros a pesar-me nos ombros….crepúsculos a beijar a madrugada na ausência dos meus lábios frementes de sal e mágoa…esquecidos dos teus olhos…anoitecidos de sorrisos.
Permaneço esperando com o corpo preso nos espinhos desse leito…deixo que a noite me seduza…que a escuridão me possua…que o vento acarície os meus sonhos desfeitos…o meu corpo naufragado…o meu olhar entristecido desse barco sem destino…navegando nas águas turvas do poente…sufocado de cansaços e de gestos sem memória…prisioneiro de ilusões…sedento de eternidade…deserto de ternura e da noite amante.
Nessa noite que em mim grita a ilusão da carne…morrendo tanta vez no tempo que deixou de ser tempo…no desejo que deixou de ser cío…nas esperas que anoiteceram as manhãs…nas mãos que afagam o vazio e cobrem de silêncio todos os gemidos de amor que rasgaram esse corpo…que estagnaram nesse rio por onde correm todas as mágoas…nas margens desse corpo que foi meu e que procuro em todos os muros…em todas as esquinas da solidão…em todas as incertas sombras que deambulam perdidas na terra do silêncio…no gume da noite por onde vagueia esse corpo só.
Adormeço na noite gelada…abraço os despojos de amor que guardei no lugar dos sonhos…nas margens do meu corpo banhado pelo esquecimento dos luares de Agosto…pelo silêncio dos teus olhos distantes…pela aurora que me segreda o gelo da noite…a respiração da ausência adormecida nos meus braços…a espera tatuada no meu corpo na volúpia esquecida nos lençóis de mágoa na solidão da madrugada…espectro onde se abriga a nocturna ilusão do tempo…labirintos inquietos que percorro na gélida noite…invísível sombra onde se escondem os meus fantasmas…penumbras sem nome e sem rosto que vagueiam no meu sono…sem gestos…sem palavras…soturno abraço envolvendo os delírios desse corpo morto.

(extraído, com autorização,
da sua página de Facebook)