De: José Régio

poema
Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a carne lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
…Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– O meu nome é Adão…

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!
Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-me tudo!
…Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado.
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Adão e Eva se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe…

Eu os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade,
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuámos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar.

(José Régio – Poemas de Deus e do Diabo)

extraído com autorização, da página
de Anabela de Araújo do Facebook

>isabel

DR

09:16 – 23 de Outubro de 2013 | Por Notícias Ao Minuto(Fonte)

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“É este nada, zero, inútil, traidor, autocentrado, calculista, contraditório, que é formalmente, Presidente da República”. Assim pode ler-se num texto publicado ontem pela deputada do PS, Isabel Moreira, no Facebook.

 

A constitucionalista reagia desta forma às declarações de Cavaco Silva no passado fim-de-semana, que deram a entender que o chefe de Estado descarta a remissão do Orçamento do Estado para o Tribunal Constitucional para efeitos de fiscalização preventiva.

O chefe de Estado, recorde-se, afirmou que “os custos da não entrada em vigor” do diploma a 1 de Janeiro podem ser “muito, muito muito maiores” do que a certificação da constitucionalidade de determinadas normas.

Já em declarações ao jornal i, a parlamentar justificou as palavras que dirigiu ao Presidente da República à luz do facto de este estar “a trair o juramento que fez de defender a Constituição”.

“Quando o Presidente, sentado ao lado do primeiro-ministro, dá a entender que o Orçamento pode ter inconstitucionalidades mas vai promulgá-lo, o que está a dizer é: ‘Juro defender o Orçamento do Estado apesar das inconstitucionalidades”.

Como tal, conclui Isabel Moreira, Cavaco é um “Presidente decorativo”.

PIANO

rosa-e-teclado-de-piano-12350428Piano,
baixinho,
tão baixo que apenas ouço
a respiração das sílabas tónicas,
chamam por mim.

Alguma serenata
à vizinha do 1º esquerdo,
penso eu,
já que a noite
ainda cresce subtraída.

Mas o piano
enfurece-se
e até as sílabas átonas aborrecem,
ressoando sem nexo
nas galerias,
nos muros
e nos átrios do meu cérebro.

E eis que sou uma nau
a balançar
no meio de procela adamastórica
a passar pelo Cabo da Boa Esperança,
de tormentas
e naufrágios atulhado.

E quando o mar já entra pela amura,
acordo.
Mudam-me as fraldas…

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2013

Sábado, 19 Outubro, 2013

(extraído do seu blogue, com devida autorização.
http://nimbypolis.blogspot.com )