CONVITE – Célia Laborne Tavares

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Acordei.

Os olhos semi-pesados de sono encontraram a manhã muito nova, como se fosse convite. O avião passou voando tão baixo que assustou todos os pássaros e quase roçou minha janela.

Não havia dúvida, era o convite renovado. Parti com ele.

No primeiro instante, fiquei um pouco constrangida. Entrar assim, de pijama, rosto sonolento, cabelo despenteado no avião elegante, era experiência imprevista, para mim e para os passageiros sempre medrosos de surpresas. Alguns olharam-me espantados. Uma senhora de chapéu moderníssimo e luvas extravagantes chegou a arranjar uma expressão escandalizada! Fez-me pequena com seu pensamento claro de que eu era intrusa. Pensei até que iria chamar a aeromoça para atirar-me fora do avião.

E talvez não me importasse! Aquela manhã não deixava zangar-me com ninguém. Não sei se ela o percebeu, mas permitiu-me ficar.

Sentei-me no último banco. Minha intenção era seguir e não assustar os passageiros. Seguir assim, desligada das coisas. Sem malas ou reservas de passagens. Sem ir correndo para o aeroporto, vencer a angústia da espera e os momentos de despedida. Ir embora sem destino para me fazer liberta do bojo do avião.

Depois, encontrar lá em cima, uma paz extensíssima. A paz há muito procurada e que agora vinha de presente.

As nuvens, muito à vontade, faziam castelos esquisitos para uma legião de ventos inquietos. O céu chegava tão puro, tão alto, que não era atingido nem pelos pássaros deslumbrados.

E o avião tocava-o como coisa sua! Traçava uma linha de fuga para um pouso desconhecido. De repente, a aeromoça chegou real, trazendo laranjada e o sorriso bonito que ela põe nos lábios em todas as viagens. Achou graça porque eu não sabia para onde íamos. Ofereceu-me revistas e mostrou-me uma praia como possível meta.

Pouco depois, já se podia ver a brancura paciente da areia aguardando as águas indecisas.

O mar, que o avião fizera mudo e quase imóvel, vingava-se em brilho e atração imensa. A terra abraçava-o carinhosamente, defendendo-o do abismo do céu. Era a competição espontânea entre céu e mar… A curiosidade insistiu comigo para saber do piloto qual a sua escolha.

O avião fez-se criança para a grande hora. A porta da cabine ficou branca para não contar nada a ninguém. Resolvi transpô-la. Mas, a senhora elegantíssima, de luvas extravagantes, não suportou mais a minha presença. Atirou-me fora. Sem mar, sem céu, numa queda de regresso para um quarto escuro de janelas pequenas.

Mas, seguirei de novo, um dia qualquer de céu de convite, estou certíssima.

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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