Um Presidente celibatário no Eliseu?

hollandeOs franceses são grandes rezingões, protestam por um nada, mas  nas questões de sexo e poder aceitam tudo ou quase. Segundo uma sondagem deste  domingo, não atribuem grande importância ao facto de François Hollande ter  traído a ainda primeira-dama, Valérie Trierweiler, com Julie Gayet, uma atriz 18  anos mais jovem que ele.

Neste aspeto, os franceses são liberais e gostam de dizer que  até acham alguma piada a estes episódios, com aspetos dignos de figurarem no  enredo de uma peça de teatro cómica, tipo vaudeville.

Os gauleses, sobretudo os parisienses, separam os assuntos da  vida privada e da vida pública, acham que ter uma amante faz parte das  liberdades individuais e até consideram este género de casos um símbolo da  modernidade que não têm os que eles chamam “os hipócritas puritanistas  anglo-saxões”.

No passado, os franceses também perdoaram todas as muitas  facadas no matrimónio dos Presidentes Giscard d’Estaing, Jacques Chirac ou  François Mitterrand. A este último, até desculparam que ele tenha protegido a  sua segunda família e a sua filha secreta recorrendo a métodos ilegais, como  escutas telefónicas de dezenas de personalidades e pressões fiscais contra  jornalistas que pretendiam revelar o caso.

Contudo, apesar desta benevolência dos gauleses, no Eliseu  considera-se que a separação, ou não, do casal presidencial tem de ser bem  esclarecida e resolvida de forma digna tanto para Hollande como para Valérie – e  sobretudo assumida de forma exemplar e sem ambiguidades.

Em Paris, diz-se que assessores do Eliseu aconselham o chefe de  Estado – que prometeu esclarecer o assunto até 11 de fevereiro, data de uma  visita de Estado aos Estados Unidos da América – a, se optar por Julie, não  instalá-la imediatamente no Eliseu. Defendem um Presidente celibatário, sem  primeira-dama, informa o matutino “Le Fígaro”. A acontecer seria a primeira vez  na história da quinta República.

Valérie, que não é casada com François Hollande, saiu do  hospital este fim de semana para passar uns dias de repouso em La Lanterne, um  palacete que é uma residência secundária do Presidente, na região de Paris. O  seu tratamento, à base de calmantes, passa também por convencê-la a encarar com  serenidade e sem precipitações esta séria crise conjugal.

No fundo, mediadores tentam negociar com Valérie uma saída  airosa para ela e o Presidente. Porque, apesar dos franceses se terem revelado,  até agora, muito indulgentes sobre este caso, deixarão de o ser se virem o  inquilino Eliseu embrenhar-se demasiado longamente numa caricata novela cor de  rosa pouco digna da função presidencial.

fonte: Expresso online