Fonte: Expresso-online(sapo)-entrevista a Ana Gomes

“Muitas vezes estou desacompanhada no PS. Mas estou do lado certo”
Habituada a polémicas, a eurodeputada socialista viu novamente frases suas nos últimos dias serem alvo de forte contestação. Fomos falar com ela. Eis o resumo de uma conversa sem papas na língua.
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Expresso (texto) António Pedro Ferreira (fotos) |
11:00 Domingo, 18 de janeiro de 2015
Ana Gomes. Jurísta e política, filiada ao Partido Socialista português e membro do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu
Ana Gomes. Jurísta e política, filiada ao Partido Socialista português e membro do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu / António Pedro Ferreira
Que Ana Gomes é mulher de polémicas já todos sabemos. Só na última semana, meteu-se em mais duas, depois de escrever na rede social twitter que os atentados terroristas também se deviam às políticas de austeridade e a criticar a utilização pelo Charlie Hebdo de caricaturas do profeta Maomé. Ontem falámos com a eurodeputada socialista ao telefone. E antes mesmo de colocarmos a primeira pergunta, já Ana Gomes disparava:

Você vai-me gravar, não vai? É que eu estou farta que descontextualizem o que eu digo.

Sim, não se preocupe, estamos a gravar.
Foi libertada uma notícia que me citava de forma deturpadora, e estou a espera que peçam desculpa e que corrijam, porque boa parte desta polémica toda também tem a ver com isso. Devido a isso, gostava de lhe pedir particular atenção na transcrição.

Nós teremos cuidado com isso. Mas está a referir-se exatamente a quê?
Publicou-se uma coisa em relação ao tweet que eu fiz, no dia do atentado ao Charlie Hebdo, a afirmar que eu tinha dito que a austeridade foi a causa do atentado. Quando, o que eu disse, e está no tweet, é que a austeridade foi uma causa entre várias, e uma coisa é muito diferente da outra.

Tem sido injustamente criticada?
Naturalmente que sim, acho que tenho sido injustamente criticada. Eu estou a defender os meus pontos de vista, estou a fazer um combate político, porque acho que é minha obrigação como cidadã informada que trabalha na política externa. Tenho a obrigação de combater ideias que podem ser aparentemente politicamente muito corretas, mas que são erradas, e que provocam uma escalada de tensão que é aproveitada muitas vezes pelos setores mais reacionários da sociedade europeia com consequências desastrosas para a desagregação da própria sociedade. E, no fundo, acabam, também, por fazer o próprio jogo dos terroristas.

Acha que o que defende é correto?
É exatamente porque há tantos políticos que se vergam ao que é politicamente correto, que é a opinião dominante no momento, que nós estamos se calhar onde estamos. Com governos fraquíssimos, com cidadãos cada vez mais descrentes.. Eu não vim para a política em busca de uma carreira profissional, vim para a política por convicção, e para defender aquilo que eu acho que é bom, que é correto, que é melhor para a sociedade onde vivem os meus filhos e os meus netos.

E tem sido precisamente muito criticada.
Como lhe disse, não ando aqui para agradar a toda a gente, nem para agradar ao maior número possível de pessoas. Estou aqui para fazer aquilo que eu acho que é um combate político e ideológico, porque justamente me importa que a União Europeia combata inteligentemente o terrorismo.

Já viveu num país muçulmano.
Vivi numa sociedade muçulmana, devo dizer que sou ateia, e devo dizer que aprendi a respeitar a religiosidade da sociedade muçulmana em que vivi, na Indonésia, mais do que na nossa própria sociedade, isto porque enfim, a religiosidade na nossa sociedade não tem a mesma importância para o dia a dia das pessoas. E por isso, tenha talvez desenvolvido uma particular sensibilidade. Mas quando essas crenças religiosas implicam atuações que violam os direitos humanos, sou a primeira a criticá-las.

Como na Arábia Saudita?
Por exemplo, estou ainda hoje no Parlamento Europeu aqui na linha da frente com aqueles que estão a criticar o governo da Arábia Saudita por estar a vergastar um cidadão por este estar a dar a sua opinião.

As críticas têm poder?
Não tenho problema nenhum de criticar governos, ou instâncias religiosas muçulmanas quando estão em causa violações dos direitos humanos. Agora, acho que há alguns ataques que são gratuitos, desnecessários, e que ofendem muçulmanos, e que portanto não devemos embarcar neles. Podia fazer cartoons sobre Jesus e Maria, que se calhar divertiriam muita gente, mas que seriam extremamente estúpidos porque iriam ofender desnecessariamente muita gente que tem crenças religiosas católicas.

Por isso é contra as caricaturas do Profeta.
Sabemos que ofendem milhões de muçulmanos. Não estou contra o desenho da caricatura de Maomé da capa de ontem de Charlie Hebdo. Estou contra é que se diga que é o Profeta. Porquê é que não se diz que é um qualquer Maomé? Um qualquer de milhões de muçulmanos, que vivem inclusivamente nas nossas sociedades europeias, e que são também vítimas de terrorismo, que também ficaram horrorizados com o que aconteceu no Charlie Hebdo.

Trata-se de um assunto sensível, como o de ofender a mãe de alguém?
Oiça, não acho que qualquer ataque terrorista, qualquer que seja, contra quem quer que seja, tenha qualquer desculpa, e isso é o que mais me incomoda na forma perversa e distorcida como alguns média transcreveram o que escrevi.

O que propõe?
Vamos por um polícia ou um espião atrás de qualquer um desses jovens? Não, nós precisamos é absolutamente de investir em programas de prevenção de radicalização, que envolvam as comunidades, as famílias, etc., em programas de desradicalização. Ora, também para aí não tem havido dinheiro nenhum. Também tem muito a ver com as políticas austeritárias. No fundo, em muitos aspetos temos estado a fabricar juventude que se sente mal nas sociedades, que se sente desesperada, e é facilmente recrutada para as redes terroristas. E não temos estado a fazer o que devíamos há muito tempo.

Fica aborrecida com as críticas?
Oiça, quem anda na guerra dá e leva, eu estou preparada. Estou na vida política por convicção, e estou preparada para levar com essas críticas, portanto façam favor. Porque eu enquanto tiver voz, digo aquilo que tiver de dizer, por muito que incomode muita gente.

O PS não a acompanha em muitas das suas posições.
É, infelizmente, muitas vezes, tenho estado desacompanhada do meu próprio partido, mas por acaso até acho que sou eu que tenho estado do lado certo. Estava do lado certo quando denunciei os chamados “Voos da CIA”, e quis destapar tudo o que havia por trás. Enfim, noutras questões também posso dizer que é verdade, sinto-me pouco acompanhada pelo meu próprio partido, mas mais tarde ou mais cedo haverá quem me dê razão, e há sempre gente inteligente que acaba por perceber que há certos combates que valem a pena, como por exemplo o combate da luta contra a corrupção.

Incomoda-a ficar isolada?
Também estou a receber mensagens de apoio de muita gente. Não me incomoda nada, como lhe digo.

Uma ferramenta que tem usado bastante nos últimos tempos é a internet e, nomeadamente, as redes sociais. Acha que têm alterado a forma de criar opinião pública, e de gerir a política?
São veículos que são utilizados de forma alternativa aos meios de comunicação social tradicionais, que têm tido efeitos poderosíssimos, dá o lado imediatista da informação, sem ter de haver intermediários. Se calhar quando passou a haver eletrificação generalizada, houve muita gente que também não gostou.. mas que enfim, tiveram de se render. São um fator poderosíssimo de comunicação e de mobilização, repare na importância que tiveram nas “Revoluções Árabes”.

Responde aos comentários?
Eu procuro impor-me algumas regras, por exemplo, recebo muitos tweets de ódio.. e com ameaças até.. inclusivamente aí de Portugal, e não só em linguagem rude nem grosseira mas mesmo ameaças, e a minha regra é pura e simplesmente não reagir. Só reajo quando tenho alguma consideração, quando acho que o ponto de vista que a pessoa faz, é genuíno, ou outros que não merecem consideração.

Somos um povo muito politicamente correto?
Tenho muitos amigos e familiares que me pedem para não contestar, e era fácil fazer isso. Era tão mais fácil ficar calado ou alinhar no que é politicamente correto, mas acho que não devo fazer isso.

Vê diferenças nestes dias na Europa? Olhe, estou neste momento no aeroporto de Estrasburgo, e há aqui imensos polícias com metralhadoras, mas não é a primeira vez, e os cidadãos todos compreendem isso naturalmente.

Polémicas de Ana Gomes

A eurodeputada socialista Ana Gomes causou, com os seus comentários acesos, várias polémicas ao longo dos anos. Nas últimas semanas a eurodeputada socialista Ana Gomes foi fortemente criticada pela exposição das suas opiniões no Twitter relativamente ao caso Charlie Hebdo. Mas já não é a primeira vez que suscita polémicas com os seus comentários acesos

Charlie Hebdo

Ana Gomes publicou na sua conta do Twitter, na quarta-feira dia 7 de janeiro, que as políticas de austeridade da Europa “também” deram origem ao “desemprego, xenofobia, injustiça e extremismo”. A eurodeputada mostrou-se em desacordo com a última capa do jornal satírico francês, e os deputados do Partido Socialista preferiram não comentar as posições de Ana Gomes, e “não amplificar a questão”.

Vistos Gold

A eurodeputada socialista pediu esclarecimentos sobre a atribuição dos vistos gold várias vezes antes da polémica de novembro de 2014. Posteriormente acusou o governo português de estar “a emitir vistos dourados, talvez até a criminosos de outras partes do mundo, que são vistos [para o espaço] Schengen”.

BES

No caso Banco Espírito Santo, Ana Gomes não hesitou em dizer que “o banco foi e é instrumento de atividade criminosa do grupo”, e que “a borrasca era tão grossa que nem a PMG se podia dar ao luxo de a encobrir”.

Moção contra Sarkozy na deportação de Ciganos

Na moção que criticava o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pela deportação de milhares de ciganos romenos e búlgaros, os deputados do PS votaram contra. A eurodeputada Ana Gomes não conteve a sua revolta com este facto, e escreveu no blogue “Nossa Causa” que os deputados do Partido Socialista só votaram contra a moção devido a “ordens de cima”, “inspiradas por instâncias governamentais”.

“Voos da CIA”

Uma das vozes mais críticas do caso dos “Voos da CIA”, apontou o dedo a José Sócrates, na altura primeiro-ministro, e ao ex-ministro dos negócios estrangeiros Luís Amado, não mostrando dúvidas ao afirmar que o “Governo é responsável” pela condução desapropriada do dossier dos referidos voos, e “quem esconde debaixo do tapete” a matéria em questão “é que arrasta o nome de Portugal na lama”.

Submarinos

No polémico caso da compra de dois submarinos alemães, a eurodeputada acusou a Comissão Europeia de lavar as mãos “de um contrato assinado sob a responsabilidade política do seu presidente, Durão Barroso, ao tempo em que era primeiro-ministro de Portugal”. Criticou, também, Paulo Portas, afirmando que “há suspeitas de corrupção” que envolvem o vice-primeiro-ministro, enquanto ministro da Defesa na altura, afirmando que o seu “envolvimento é muito maior do que parece ser”.

Estaleiros Navais Viana do Castelo

Em novembro de 2003, Ana Gomes criticou o processo de subconcessão dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), e afirmou que “é preciso verificar” eventuais “negócios” entre o escritório de advogados do ministro e o grupo Martifer, que vencedor do concurso.

No seguimento deste caso, Ana Gomes foi processada, a título pessoal, por José Pedro Aguiar-Branco, ao que respondeu que não se deixa “intimidar”, e que nunca teve “qualquer relutância em discutir, (…) com o senhor ministro ou com quem quiser discutir o assunto”.

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Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

1 thought on “Fonte: Expresso-online(sapo)-entrevista a Ana Gomes”

  1. Há dias assisti a um programa de televisão onde Ana Gomes disse que a austeidade era uma das causas de muitos jovens se alistarem nas fileiras dos jiadistas e também da falta de atenção por parte das autoridades em integrarem esses jovens nascidos, por exemplo em França, mas descendentes de povos mulcumanos. Ela não justificou os actos terroristas, simplesmente diss que não se deve brincar com a fe dos outros. É claro que os mulcumanos não gostaram das imagens, algumas muito fortes e se fossem referentes aos nossos profetas ou santos também não gostaríamos. Só uma minoria de mulcumanos reage com violência assim como uma minoria de cristãos reagiria assim. Como disse Manuela Ferrira Leite no seu comentário das Quintas feiras, o que aconteceu foi simplesmente um bando de criminosos que decidiu praticar aqueles crimes. Quero-te dizer, Irene, que na minha opinião a Ana Gomes tem razão. A austetidade, o preconceito e a separação das minorias em guetos têm muita influência em todos estes acontecimentos. Um beijinho e um bom início de semana
    Emília

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