Sensações da dor, uma rainha apanhada desprevenida, a mais nova deputada desde 1667, reflexões sobre catástrofes e um território duro. O Reino Unido decidiu-se nas urnas e, ao contrário do que previsto por todas as sondagens, a indefinição não se arrastou.

Cátia Bruno

 

Era o resultado que ninguém esperava, mas aconteceu. O Partido Conservador é o vencedor indiscutível das legislativas, depois de conquistar 36,9% dos votos e 331 lugares na Câmara dos Comuns, acima dos 326 necessários para a maioria absoluta.

Uma votação inesperada, depois de semanas com as sondagens a preverem uma corrida muito renhida, sem conseguirem indicar um vencedor. Previa-se semanas de negociações para formar um Governo estável e, afinal, ficou tudo decidido em menos de 24 horas.

O resultado foi tão inesperado que apanhou a própria rainha Isabel II de surpresa. Ausente em Windsor para se demarcar do período de “regateio”, teve de regressar à pressa ao Palácio de Buckingham a fim de se reunir com Cameron, para este poder formar Governo.

“Estamos à beira de algo muito especial”, anunciou o primeiro-ministro à porta do número 10 de Downing Street, depois de garantir que irá formar um Governo de maioria conservadora e de elencar uma lista de objetivos que pretende cumprir – entre eles o de realizar um referendo acerca da permanência do Reino Unido na União Europeia.

Sensações de dor
Vários foram os grandes derrotados da noite eleitoral, que deu lugar a três demissões na manhã desta sexta-feira: Ed Miliband, líder dos trabalhistas; Nick Clegg, ex-vice-primeiro-ministro e chefe dos liberais; e Nigel Farage, dirigente do eurocético Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), que nem conseguiu ser eleito deputado.

“Assumo a responsabilidade total e completa pela nossa derrota”, declarou Miliband no seu discurso, anunciando a demissão com efeitos praticamente imediatos. A derrota pesada não pedia outro desfecho, tendo os trabalhistas ficado com 232 lugares no Parlamento, menos 26 do que os conseguidos por Gordon Brown em 2010 (258).

Como se não bastasse, os trabalhistas viram ainda vários membros importantes perderem os seus assentos parlamentares, como foi o caso do ministro-sombra das Finanças e militante histórico Ed Balls, em Leeds. “Qualquer deceção pessoal por este resultado não é nada comparada com a sensação de dor que me produzem os resultados dos trabalhistas em todo o país”, declarou Balls, depois de uma recontagem que confirmou a derrota perante a candidata conservadora, Andrea Jenkyns.

Outros candidatos que perderam o lugar em Westminster são Jim Murphy, líder dos trabalhistas na Escócia, e Douglas Alexander, ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros, que deixou fugir o assento parlamentar para as mãos de Mhairi Black, candidata dos independentistas escoceses do SNP que é, aos 20 anos, a mais nova deputada desde o ano 1667. A Escócia foi, aliás, território duro para os trabalhistas: se dantes tinham 41 dos 59 deputados eleitos a norte da fronteiras, agora contam com apenas um, tal como os conservadores e os liberais.

Também os liberais-democratas perderam membros valiosos, que faziam inclusive parte do próprio Executivo, como Vince Cable, Danny Alexander e Ed Davey. A sua derrota é histórica, tendo passado de 57 assentos parlamentares para apenas oito, o que provocou a demissão do seu líder e até agora vice-primeiro-ministro: “É uma noite triste, mas não permitiremos que os valores liberais decentes se extingam da noite para o dia”, declarou Nick Clegg num discurso emocionado, onde refletiu sobre “a catástrofe”, como lhe chamou.

Indepentistas escoceses arrasam, eurocéticos do UKIP falham objetivo
Sorridentes estão, decerto, os militantes do Partido Nacional Escocês (SNP), que conquistaram 56 dos 59 lugares disponíveis para os representantes do país em Westminster. A líder do SNP, Nicola Sturgeon, admitiu não esperar um resultado tão esmagador e eliminou por completo a hipótese de que tenha sido o seu resultado a permitir a eleição de um novo Governo conservador: “Os trabalhistas foram incapazes de derrotar os ‘tories’ em Inglaterra”, resumiu.

Os números falam tão alto que vários líderes conservadores admitiram, ao longo da manhã de sexta-feira, que terão em conta os desejos de maior autonomia dos escoceses – entre eles o próprio Cameron, que garantiu cumprir as promessas de maior independência feitas aos vários países que compõem o Reino Unido.

A noite contou ainda com outro derrotado, que poderá representar o falhanço das políticas mais eurocéticas entre os britânicos: o UKIP elegeu apenas um deputado, o antigo ‘tory’ Douglas Carswell, eleito por Clacton (círculo que já representava pelo partido anterior).

Embora prejudicado pelo sistema eleitoral, o líder Nigel Farage falhou o lugar de South Thanet, que esperava conquistar, e cumpriu a promessa de sair da liderança do partido. “Sou um homem de palavra”, garantiu o também eurodeputado, acrescentando depois que não exclui voltar a candidatar-se. O que significa que, mais cedo ou mais tarde, poderemos voltar a ter Farage a fazer barulho – mas fora da Câmara dos Comuns. É que o UKIP é, em larga medida, um partido dependente do carisma do (até-agora-e-quem-sabe-de-novo) líder.

 

foto de Eddie Keogh/Reuters

Fonte: Expresso online

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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