Fonte: Diário de Notícias (Sérgio Figueiredo)

1.A entrevista estava pedida e previamente combinada. Queríamos divulgá-la na data, prevista por lei, para a revisão da medida de coação. Se fosse libertado, era notícia. Se continuasse na prisão, também. Dezenas de supostas pistas, provas, factos ou meras insinuações precisavam de uma explicação. Ou da falta dela. Certo é que o famoso contraditório seria mais do que necessário, face à sequência quase diária de notícias que invariavelmente o encaminham para o banco dos réus. Na primeira pessoa, melhor ainda.
Apesar de já o ter feito por duas vezes, era portanto inegável o interesse jornalístico de novo testemunho público de José Sócrates. Se o homem queria falar, não havia que hesitar. Mas hesitei. Mesmo que, como se percebeu depois, entre o que queríamos saber e o que ele tinha para dizer não houvesse conciliação possível.
A hesitação não tinha a ver com a falta de interesse. Nem com falta de noção, porque sabia do impacto que um texto que assinei neste jornal, dois dias depois da detenção – “Gosto de Sócrates” -, tinha então provocado na redação. Uma redação a que ainda não pertencia, mas que, em pouco mais de cinco meses, deu-me este sentimento de orgulho, que publicamente assumo, sendo intimamente meu, de fazer parte e de ser o primeiro que hoje responde por ela.
Quem responde por uma equipa deve, antes de tudo, responder por si próprio. E arrisco revelar que fui questionado pela minha gente, jornalistas de corpo inteiro e cara destapada que queriam simplesmente saber porquê. Talvez receando que as minhas amizades condicionassem o seu trabalho, a cobertura editorial do mais importante acontecimento de uma nação, a prisão de alguém que chefiou o seu governo.
O porquê já estava impresso na página 14 do Diário de Notícias de 24 de novembro de 2014: “Faço-o dividido entre quem, intimamente, quer acreditar no equívoco, que tudo seja esclarecido, que a inocência seja declarada, e aquele que, anos e anos, se indigna com o país dos intocáveis, contra o sistema que protege os poderosos, contra a impunidade de poucos e a vulnerabilidade dos dez milhões de outros.” Sobre condicionamentos, quase meio ano volvido, só a própria redação da TVI pode falar. Ou, antes dela, os cerca de 1,8 milhões de portugueses que diariamente preferem a informação que passei a dirigir.