Fonte: Obvious

Sobre as cartas que nunca recebemos e as que nunca leremos

publicado em recortes por Paula Peregrina
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Em memória das cartas, mesmo aquelas na forma de e-mail, que deixadas de lado pelas mensagens rápidas e instantâneas, também deixaram um vácuo nas relações e nos registros das existências.

cartas
Ao falar em cartas, muitos pensam neste obsoleto instrumento como apenas um esquecido e antiquado meio de comunicação. Por muito tempo as cartas foram a única forma de se comunicar à distância, e o tempo decorrido entre o seu envio e a sua chegada eram longos, então os relatos também eram longos. Quando as notícias chegavam, quantas outras notícias já haviam por dizer em outras cartas. O avanço da tecnologia ensinou o homem a correr contra o tempo, e que alívio poder ter notícias frescas daqueles que estão distantes, e depois ouvir sua voz, e depois ver suas imagens… sem entrar nos avanços que estas mesmas tecnologias trouxeram à produção de conhecimento, às guerras, às conquistas científicas; voltando às cartas: seriam elas mesmo, apenas um meio de obsoleto comunicação?

Nestas modernidades vívidas que nos cerceiam, o que vejo de mais próximo da carta é o e-mail, agora também antiquado demais, reserva-se apenas para comunicados oficiais, envio de currículos e mensagens formais. Bom, de qualquer forma, quem quer que tenha experimentado uma troca íntima de e-mails aproximou-se de sentir o gosto das cartas, como quem aproxima-se de ter experimentado o gosto do vinho ao tomar um suco de uva. Para que afinal render longas prozas elaboradas, quando podemos simplesmente enviar uma mensagem instantânea, com direito a conferir sobre sua visualização? O controle do outro, o controle do tempo, a proximidade tão sufocante que nos afasta – colados e distantes. A distância já não se trata de quilômetros, mas de conexão. Não esta conexão virtual a qual diariamente acessamos, mas a conexão com o outro. Conexão direta, potente, simbólica, com o ser e não com um acervo de personalidades fluidas.

Que perda para a história, não ter acesso aos e-mails trocados pelas personalidades excepcionais, tudo tão protegido por senhas e criptografias, tudo tão rodeado por “deletes” fáceis. Quem poderá no futuro ler uma troca de cartas do seu escritor adorado, do seu cientista admirável, das figuras políticas que gostaria de conhecer a fundo? Quem poderá acessar o sumo de trocas apaixonadas e subversivas como as cartas de Joyce à Nora, ou os sonhos e conflitos poetizados como nas cartas de Rimbaud aos seus conterrâneos franceses enquanto se aventurava na África, ou as conjecturações de uma pretensa nova ciência como nas cartas de Freud aos seus interlocutores? Ainda que a privacidade nos desse permissão, quem poderá saber sobre as correspondências, quando já não nos correspondemos, sequer em segredo?

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Há perda para literatura, tantas vezes constituída também das cartas de seus autores, verdadeiras obras literárias involuntárias que endossam a leitura e nos aproximam dos criadores das obras. Há perda para a arte que para além da imagem e dos relatos medidos e direcionados, já não conhecerá sobre o universo verbal dos artistas, tantas vezes provido de cores e formas tão sedutoras e impactantes quanto as obras visuais que lhes fizeram conhecidos os nomes. Há perdas para quem nunca se surpreendeu ao receber uma carta, nunca tocou a textura do mesmo papel que o outro tocou, degustou os contornos de sua letra e deitou-se atento sobre as palavras cuidadosas, forasteiras de poesia; divertiu-se nas brincadeiras de espaço, rima, neologismos; encucou-se com símbolos e enigmas, rabiscos; tropeçou nos erros que não foram corrigidos por um corretor qualquer. Dessas conversas que chamam para um diálogo com a alma, que corredores distraídos que somos, nem sempre realizamos na fala audível. Há na escrita alguns contorcionismos impossíveis para a fala, desses que apresentam alvará para arrancar emoções enferrujadas.

Perde quem nunca poderá rasgar uma carta impulsivamente após uma briga ou um descontentamento, e depois colá-la com arrependimento e durex. Quem nunca, durante a arrumação da bagunça, encontrar em meio a contas e documentos descartáveis uma carta perdida, de alguém que já não vê mais, talvez alguém que já não possa mais ser visto, levado pelo tempo, há ali uma amostra da alma que fica eternamente envolvida pelas palavras dispensadas. Ainda que não sejam cartas, um e-mail inusitado perdido entre as pastas e invalidades, aquele texto todo escrito somente para você… um sorriso pela boa lembrança, ou uma meditação antes de deletar uma memória que melhor seja esquecida. Um dilema entre preservar a beleza ou paz. Entre amadurecer ou esquecer.

Não. Nem para a história, nem para a literatura, nem para arte, nem para a vida – as palavras se tornaram obsoletas, mudaram de lugar, tornaram-se mesmo, na maior parte do tempo, um mero meio de comunicação, como o ruído dos animais funciona para os mesmos. Enquanto as mensagens se fazem, não raro, por vias indiretas em espaços públicos, a desmemoria se faz por via direta: já não são as cartas ou e-mails, estes textos que nos foram dedicados em algum momento, que sofrem a anulação – são os outros. Sem cartas para rasgar ou e-mails para deletar, rasgamos pessoas, deletamos pessoas. Que impacto essa mudança simbólica haverá exercido sobre a nossa forma de relacionar com o mundo?

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Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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