JOÃO SEMEDO um ex-deputado que merece o meu respeito. Entrevista de Ana Sá Lopes — Jornal i

Se a Europa não aceitar a reestruturação da dívida, João Semedo defende que se comece a preparar o plano B.

Esta entrevista foi feita por escrito, por razões óbvias. O carismático ex-coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, reformou-se agora por doença e, neste momento, não fala. Está optimista e cheio de vontade de reaprender a falar, mas o processo será longo.

A doença não o impede de continuar a participar na vida do partido. Nesta entrevista ao i defende claramente uma posição que até agora não tem sido assumida pelo Bloco de Esquerda: se for rejeitada a reestruturação da dívida, é preciso começar a preparar a saída de Portugal do euro.

Lamenta que Carvalho da Silva não seja candidato à Presidência e tem dúvidas sobre o pensamento de Sampaio da Nóvoa e a sua ligação ao PS. Sobre o Livre, é duríssimo: “Se é para defender o mesmo que o PS, basta o próprio PS”. Rejeita usar o termo “capitulação” no caso da Grécia e acredita que, apesar das condições do terceiro resgate, é melhor um governo grego liderado pelo Syriza.

Podemos começar por falar da sua doença, que o obrigou a reformar-se e a abandonar o cargo de deputado?
Sim, podemos falar e começar esta entrevista pela minha doença. Sou médico e isso permite olhar a doença com maior naturalidade. Fui sempre muito claro, nunca escondi, nem fiz mistério e muito menos tabu sobre o que me aconteceu. A minha privacidade tem outras fronteiras ou muralhas que não a doença. E até por isso, pela forma como assumi e abordei publicamente o que se estava a passar comigo, quero registar com agrado a forma como a comunicação social não transformou em notícia a minha doença. Acho que isso traduz maturidade informativa e mais elevação nos critérios editoriais. Aproveito para aplaudir e agradecer, claro.

Como é que descobriu que estava doente?
Conta-se em poucas palavras. Em 2013, a seguir às autárquicas, foi-me diagnosticado um cancro numa corda vocal. Comecei a tratar-me no IPO, com um médico e uma equipa fantásticos, num servico (ORL) que é o retrato da excelência do SNS, apesar de tão maltratado por este e outros governos. Nessa altura fizeram o que se faz nestas circunstâncias: uma primeira cirurgia e radioterapia. A probabilidade de cura era esmagadora, 96%. Estive bem durante 2014, mas depois da convenção do Bloco, entre o Natal e o fim do ano, apercebi-me que estava do lado errado da estatística e que o tumor tinha reaparecido, a situação agravou-se muito e rapidamente. Fui novamente operado, no início deste ano, uma cirurgia que procurou ainda conservar alguma voz própria. Infelizmente também não resultou e voltei a ser operado em Junho, agora uma cirurgia mais radical que me deixou sem cordas vocais, sem laringe e sem falar.

Isso levou-o a sair do parlamento…
Estas limitações são irreversíveis, definitivas. Não tive outra alternativa e fiz o que todos os portugueses na mesma situação fariam. Deixei a Assembleia, pedi a reforma por doença, incapacidade, ao fim de 42 anos e 3 meses de descontos. Como o tempo correu depressa, ainda me lembro quando fui ao hospital São José levantar o meu primeiro ordenado de interno policlínico dos então Hospitais Civis de Lisboa.

Como está agora?
Estou agora bastante bem, bastante melhor, muito optimista e cheio de vontade de reaprender a falar, processo que será longo, como acontece com uma criança, se excluirmos a componente cognitiva e simbólica da aprendizagem da fala. Essa, acho que me posso dispensar de reaprender… Mas daqui a uns meses, julgo que já poderei fazer-me ouvir. E, claro, confio que esta última cirurgia tenha finalmente arrumado com o tumor. Olho para o futuro com essa perspectiva e essa confiança.

Vai participar na campanha do Bloco?
Tenho participado. Colaborei na redacção e coordenação do programa eleitoral do Bloco, tenho participado nalgumas reuniões sobre assuntos eleitorais variados. Mas, claro, a minha situação actual traz grandes limitações. Uma campanha é sempre muito exigente do ponto de vista físico e é sobretudo comunicação. Mas lá estarei nos comícios, nas arruadas, de bandeira na mão. E sempre disponível para ajudar em questões mais políticas.

Lembra-se do primeiro dia como deputado? Como foi?
Lembro-me perfeitamente e é fácil de perceber porquê. Foi a 8 de Março, dia mundial da mulher, é difícil esquecer. Até porque passei parte do dia a arrumar a secretária que o João Teixeira Lopes tinha deixado desarrumada…E lembro-me do primeiro dia de plenário, o dia seguinte, 9 de Março de 2006. Foi a tomada de posse de Cavaco Silva como Presidente da República, marcada por um indisfarçável contraste entre o colorido da cerimónia e o cinzentismo do Presidente. Ao longo destes anos, muitas vezes me lembrei desse dia e, sobretudo, dos motivos à data invocados por Cavaco Silva para se candidatar: “Ajudar a superar o ambiente de descrença e pessimismo da sociedade portuguesa”. Aconteceu exatamente o contrário: os portugueses estão hoje muito mais descrentes e pessimistas, atestando o completo fracasso da presidência de Cavaco.

Quem foram os primeiros amigos que fez na Assembleia?
Quando entrei no Parlamento reencontrei algu480510

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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