Fonte: Renascença online

Os políticos estão a mentir mais ou é a realidade que está a mudar mais depressa?

19 Out, 2015 – 14:37 • João Carlos Malta , Ricardo Fortunato (ilustração)

O momento político leva muitos a detectar contradições no discurso de Passos, Portas, Costa e companhia. Mente-se mais ou a realidade está mais complexa? Um filósofo, um humorista, um economista, um especialista em comunicação política e um politólogo respondem.

A mentira ou as inverdades (de que políticos frequentemente se acusam uns aos outros) não são novidades no discurso político. Mas o último mês de campanha e os dias que se seguiram aos resultados avivaram de novo o tema.

A “falta de verdade” ou “dissonâncias” não é exclusivo nem da esquerda, nem da direita. Três provas:

Durante a campanha, tornou-se viral um vídeo com um debate fictício entre o Passos Coelho de 2011 e o Passos Coelho de 2015. As contradições são evidentes;
As imagens de António Costa e Paulo Portas a defenderem que um governo devia ser formado com pressupostos que, segundo os seus críticos, negam agora;
O comunista Jerónimo de Sousa fez do PS bombo da campanha da CDU e agora diz que apoiará um governo socialista.
Os políticos estão a recorrer mais à mentira na estratégia política ou a voragem da realidade, cada vez mais rápida e complexa, impele-os a contradizerem-se?

A Renascença entrevistou cinco pessoas de quadrantes diferentes da sociedade portuguesa: um filósofo, um humorista, um economista, um especialista em comunicação política e um politólogo.

As respostas transcritas abaixo resultam da edição das conversas com as cinco personalidades.

José Gil, filósofo

“O que me parece é que há demasiado espectáculo e demasiada carga de dissimulação. Não diria que é mesmo mentira. O que mudou é que agora é detectada mais rapidamente e com maior acuidade do que antigamente.

As pessoas estão cansadas, devido à dificuldade da vida quotidiana, e exige-se mais verdade do discurso político. Tenho a impressão de que essa é a causa de acreditarmos que o discurso político é mais mentiroso do que antigamente, o que não me parece verdade.

A questão da mudança também está presente, mas aí teria de ser quantificado pelos sociólogos. O que me parece é que há um desfasamento entre a percepção da realidade, o que se sente dessa realidade e o que diz o discurso dominante.

Quem diz a verdade? A resposta não é fácil e talvez não exista.”

Ricardo Paes Mamede, economista:

“Não me parece que os políticos mintam mais ou menos. Sempre houve uma tendência grande na política para interpretar a realidade em cada momento da forma mais pragmática. Alguns políticos fazem um maior esforço por serem coerentes, outros têm menos preocupação nisso.

Os políticos, em qualquer lado do mundo, em qualquer momento da história, têm a tendência a ajustar a sua interpretação da realidade àquilo que em qualquer momento é instrumentalmente mais útil.

Nem sempre isso é um problema, às vezes é o melhor contributo que um político dá para o desenvolvimento do país. É preciso alguma flexibilidade num mundo complexo. A política é mesmo a arte do possível.

Mas há uma diferença entre ajustar um discurso para que se consiga o que é melhor para toda gente e ser sucessivamente apanhado em contradição. O problema é que não é muito fácil de distinguir se se trata de um caso ou de outro.”

Nilton, humorista:

“É notório que eles mentem menos por causa de uma questão técnica, que é o arquivo digital.

A partir do momento em que passamos a ter o YouTube e todas as plataformas digitais que registam tudo o que é dito em campanha, acho que houve um decréscimo de promessas exacerbadas.

Nós, os humoristas, ficámos a perder porque nos dava muito jeito ter esse material.

Mas todos sabemos que ser político é muitas vezes ser maleável às circunstâncias. Os últimos acontecimentos provam isso. Há coisas que foram ditas há duas semanas e que já não são verdade. Mas isso é culpa das circunstâncias, quem vai para lá à espera de não mudar de opinião não consegue fazer aquele trabalho. Habituam-se a que o que dizem hoje amanhã possa ser mentira.

Isto é malta que está a fazer o melhor que pode e que sabe.

(É iroooonia).”

André Freire, politólogo:

“É preciso reconhecer que as circunstâncias mudam. Há imponderáveis, pode haver uma guerra e as situações mudam.

Mas quando os políticos mudam tem de haver uma justificação forte e clara. Também é óbvio que há, não digo mentiras, mas ambiguidades e meias verdades. Isso faz parte da política.

O incumprimento [das promessas políticas] não começou agora, mas é preciso sublinhar que a legislatura que findou a 4 de Outubro foi marcada por uma instabilidade extensa, profunda e injustificada em várias frentes.

Houve a violação de promessas que até foram contra o programa original da troika.

Há promessas, no entanto, que não foram violadas e que estavam blindadas. Os contratos das parcerias público-privadas ou as rendas da energia. Não havia dinheiro para nada, mas o IRC foi sempre descendo.

Isto foi de tal forma grave que se se voltar a repetir com este grau de gravidade é um problema para a democracia. Isto contamina os políticos.

Há ainda que somar estas circunstâncias à perda de poder dos políticos nacionais em relação às instituições internacionais. Está criada uma circunstância em que a responsabilidade de governação é nacional, mas há uma transferência de soberania para poderes supranacionais, há constrangimentos e uma impotência democrática que está por detrás”.

Vasco Ribeiro, especialista em comunicação política:

“Há mais acesso à informação e as pessoas são bombardeadas com informação e promessas, o que não acontecia nas décadas passadas. As promessas que estavam na rádio ou na televisão diluíam-se e não tinham uma omnipresença como acontece hoje. Agora há memória online.

Os discursos políticos também são mais ensaiados e redondos para fugir à contradição. Os jornalistas fazem notícias com gaffes, com o incidente, com contradições. Quanto menos os políticos falarem melhor.

Uma entrevista de fundo a um político não pode durar mais de 30 a 40 minutos. Se ele falar durante 1h30, o jornalista tem capacidade de agarrar na informação e pegar nos lados que quer. Se falo menos, controlo a mensagem. Os políticos são cada vez mais artificiais.

Os políticos passaram a ser cada vez mais apresentados como pessoas, o discurso político é pessoalizado: mostra que tem mulher e filhos, é desportista. Há uma humanização. Mas a política não é assim, porque se têm de criar políticas duras. E depois não bate certo a simpatia que as pessoas ganham com o lado pessoal, com aquilo que é a governação.”

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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