Fonte: OBVIOUS

Causa Mortis

Lógica, mas surreal. Presente, e ainda assim ausência, falta e vazio. Grave, mesmo que lembre uma piada ruim. Nada é tão claramente o fim, mas sobre todas as coisas a morte é o que mais faz com que nos agarremos à ideia de um além ou um após.

 

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Nada é tão lógico quanto morrer, mas nada é tão surreal quanto enterrar alguém que há poucas horas era, o centro do seu universo e definia sua órbita. Nada é tão presente e tão constante, mas nada é tão ausência, falta ou vazio. Nada é tão sério e grave, contudo nada se parece mais com uma piada de mau gosto. Nada é tão claramente o fim, mas sobre todas as coisas a morte é o que mais faz com que nos agarremos a ideia de um além ou um após.

E morrer, bem como morrem os passarinhos, que se chocam contra os para-brisas, de uma locomotiva em alta velocidade, sem cerimônias ou suspiros, assim, num rompante, parece-nos tão descabido, que há séculos formulamos teorias científicas, compomos poemas e inventamos histórias na tentativa de racionalizar, amenizar ou mesmo ilustrar, porque uns morrem enquanto outros vivem.

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Dentre as minhas explicações favoritas, encontra-se uma que envolve Eros e Thanatos. Aclamado pelos gregos como o deus do amor, ou conhecido entre os romanos como o Cupido. Eros é retratado como dono de uma beleza proporcional apenas a sua imprudência, enquanto Thanatos é a personificação da Morte, possui um coração de ferro e entranhas de bronze.

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Diz a lenda que, certa vez, estando Eros, cansado e encontrando pelo caminho uma caverna resolveu descansar. Sem cerimônias, o deus apossou-se de um canto afrouxou a pouca roupa que vestia e deixou que seu arco e flechas também repousassem. Mal sabia ele, que o lugar pertencia a Thanatos, que ali havia deixado suas flechas.

Depois de algum tempo, refeito, Eros resolveu de novo, dar o ar de sua graça ao mundo. E foi aí que percebeu que no chão haviam mais flechas que se misturaram às suas. Uma vez que não havia como distingui-las ou separá-las, mas sabendo quantas setas possuía, ele, sem se preocupar, recolheu o mesmo número que trazia consigo quando ali entrou e foi-se embora, deixando um pouco de si para trás e levando um pouco da morte. E é por isso, por um erro tolo, que, por vezes, vemos velhos à beira da morte envolvidos no abraço lascivo da paixão e jovens à beira do amor recebendo o beijo da morte.

 

 

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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