Fonte: OBVIOUS

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Carol ou apenas amor

publicado em cinema por Sílvia Marques
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Embora o fato de Carol ser homossexual seja determinante para o desenrolar da trama, não consegui ver esta obra como um filme sobre a homossexualidade. Para mim é apenas um filme sobre o amor e como a vida social insiste em mutilar o melhor da nossa existência, ressignificando o que é belo e limpo em condutas sujas e nefastas. O amor anticonvencional é apenas amor para quem o vive. Porém, para quem está de fora é uma nota destoante na orquestra social. É uma espécie de “aberração” moral.

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O filme “Carol” que conta com a desconcertante Cate Blanchet no papel protagonista, uma mulher que precisa escolher entre a guarda da filha e assumir a sua homossexualidade nos convida a uma reflexão poderosa. Ela necessita escolher entre o maior amor da vida dela e ser ela mesma. Como fazer tal escolha sem sair despedaçado? Tudo bem que o contexto do filme é a década de 1950 e muitas coisas mudaram de lá para cá. Mas, de qualquer forma, mesmo que de maneira mais sutil e subliminar, ainda somos , muitas vezes, convidados a fazer escolhas insuportáveis.

Bons filmes extrapolam o universo narrativo ficcional e nos conduzem aos nossos próprios dilemas, às escolhas dolorosas que precisamos fazer, aos amores que precisamos renunciar, às palavras que precisamos calar, aos sentimentos que precisamos sufocar, às situações penosas as quais precisamos nos adequar.

Embora o fato de Carol ser homossexual seja determinante para o desenrolar da trama, não consegui ver esta obra como um filme sobre a homossexualidade. Para mim é apenas um filme sobre o amor e como a vida social insiste em mutilar o melhor da nossa existência, ressignificando o que é belo e limpo em condutas sujas e nefastas. O amor anticonvencional é apenas amor para quem o vive. Porém, para quem está de fora é uma nota destoante na orquestra social. É uma espécie de “aberração” moral.
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Sim, para mim “Carol” vai muito além da homossexualidade. “Carol” fala sobre a perplexidade do primeiro encontro visual. Sobre a timidez do primeiro almoço compartilhado. Sobre o constrangimento poético ou alegria confusa do primeiro esbarrar de mãos quase acidental. Sobre o medo do primeiro beijo…reticente e tépido. Sobre o calor eufórico e meio ensandecido de tudo que vem depois. Sobre o início do amor, tão puro, tão limpo de mágoas e lembranças tristes, tão livre de fantasmas rondando pela relação. Sobre a separação forçada e dolorosa. Sobre o reencontro, melancólico e profundo. Sobre a capacidade de sublimar a própria dor e orgulho para perdoar e reviver o amor.

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Carol e Terry se amam. E qualquer mulher que já tenha amado um homem e qualquer homem que já tenha amado uma mulher tem condições de saber que não há nada de tão absurdo entre Carol e Terry. É só amor. E quando elas finalmente fazem sexo, não há nada de tão bizarro entre Carol e Terry. Mais uma vez, é só amor. Um amor que precisa gemer baixinho num mundo em que as pessoas não conseguem reconhecer os sons afetivos. Apenas os da conveniência e poder.

“Carol” não garante emoções arrebatadoras nem momentos ultra catárticos. É uma obra plácida, em que muitos conteúdos ficam nas entrelinhas. É um filme contido sobre sentimentos e relações não contidas, passionais e apaixonadas, cheias de um vigor muito poderoso. A fotografia é belíssima e ajuda a compor o quadro romântico e suavemente erótico que se forma entre a magnética e irreverente Carol e a tímida e profunda Terry. Mais do que um filme sobre a homossexualidade, “Carol” é um filme sobre o amor e as escolhas mais dolorosas que precisamos fazer para vivê-lo.

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Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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