fonte: Obvious

OS QUATRO (DES)AMORES DE FEDERICO GARCÍA LORCA

publicado em literatura por Anderson Guerreiro
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A desconhecida e pouca estudada vida amorosa de um dos principais escritores espanhóis, Federico García Lorca, esconde uma história parecida aos trágicos dramas que sobressaíram em muitas de suas obras.

federia garcia lorca

As relações homoafetivas do poeta surrealista espanhol Federico García Lorca compõem um obscuro romance e um mistério do qual somente algumas testemunhas e escassos documentos conhecem. O fato, entretanto, é que o poeta sentiu, pelos seus incontestáveis amores, uma verdadeira e devastadora paixão. Porém nem sempre essas escolhas foram as certas, com isso, em poucas ocasiões o poeta foi correspondido. Salvador Dalí, Emilio Aladrén, Rafael Rodríguez e Eduardo Rapún foram, em algum momento, os des(amores) de sua vida e de suas obras.

SALVADOR DALI: O INFACTÍVEL AMOR

Federico García Lorca e o pintor surrealista Salvador Dalí viveram um especial “Brokeback Mountain” na Espanha dos anos 20. O relacionamento deles foi além de uma simples amizade. Os artistas conheceram-se em 1922 na Residência de Estudantes, em Madrid, quando tinham 24 e 18 anos, respectivamente. Foi uma grande história de amor, porém nunca, de fato, consumada. Lorca, menos temeroso ao amor, foi muito mais consciente do sentimento que sentia por seu amigo do que este pelo poeta. Contudo, o escritor ainda tinha dificuldades e resistência em aceitar sua homossexualidade, visto, entre outros fatores, a influência de um pai muito severo. O casal manteve, no entanto, uma estreitíssima relação pessoal e artística, primordialmente. Anos seguinte, tiveram diversas discussões estéticas complexas, até 1928, quando houve a separação entre os dois.

Depois de ingressar no serviço militar e após obter três meses de licença, Dalí reencontra-se com seu parceiro Federico e com ele passa todo este período entre Figueras, Cadaques e Barcelona. De acordo com o pintor, em maio de 1926, o poeta tentou ficar fisicamente com ele e, embora Dalí tivesse ficado lisonjeado, não cedeu aos seus desejos, já que não se considerava homossexual, o que Lorca sempre respeitou.

Tempos depois, o destino novamente os separou, Lorca mudou-se para Nova York e Dalí seguiu a vida na Espanha. No entanto, quando, em 1934, os dois amigos se encontraram novamente em Barcelona, nem o tempo e nem a distância tinham apagado esse relacionamento. “Somos dois espíritos afins. Aqui está a prova: sete anos sem ver um ao outro e nós concordamos em tudo, como se tivéssemos nos falado diariamente durante todo este período”, disse Salvador Dalí.
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EMILIO ALADRÉN: A GRANDE PAIXÃO

Em 1928, em Madrid, Federico se desentende com a revista “Gallo” a tal ponto que é substituído, pelo diretor da publicação vanguardista, pelo seu irmão Francisco García Lorca. Federico, ainda em seu interior, seguia apaixonado pelo jovem Dalí, apesar de estar em um íntimo relacionamento com o escultor Emilio Aladrén Perojo, que havia ingressado na Escola de Belas Artes em 1922, mesmo ano que Salvador. Oito anos mais jovens que Lorca, Aladrén, ele era um rapaz extremamente bonito, cabelos escuros, olhos grandes e ligeiramente oblíquos, o que lhe emprestavam um ar ligeiramente oriental.

Federico havia o conhecido em 1925, mas insinuou-se a ele apenas em 1927. Lorca seduziu-se pelo charme, pelo físico e pela pessoa do rapaz, assim como a pintora Maruja Mallo, que foi a namorada de Aladrén, até o momento em que Federico o “roubou” sem remorso.

A maioria dos amigos de Lorca desconsideravam Aladrén tanto como artista quanto pessoa, acreditavam que o jovem exercia uma influência bastante negativa sobre o poeta. Federico amava chegar como Emilio às festas e apresentá-lo como um dos mais promissores jovens escultores espanhóis.

Uma jovem inglesa chamada Eleanor Dove, chegava a Madrid como representante da empresa de cosméticos Elizabeth Arden, a moça foi a causa da ruptura da relação entre o poeta e escultor. É verão de 1928 e Lorca está mergulhado em uma profunda depressão que o levou a Nova York. Naquela época, ele escreveu uma carta a José Antonio Rubio, na qual ele diz, entre outras coisas: “agora eu percebo o que é esse de fogo de amor de que falam os poetas eróticos, e me dou conta, quando eu tenho necessariamente que cortar a minha vida para não sucumbi-lo”.

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RAFAEL RODRIGUEZ RAPÚN: A INTENSA ATRAÇÃO

Entre os jovens moradores da Residência Estudantil, em 1933, encontrava-se um considerável estudante de engenharia, Rafael Rodriguez Rapún. Nascido em Madri em 1912, Rafael tinha um estatura atlética, era bom jogador de futebol e socialista apaixonado. Não era homossexual, mas de acordo com o seu grande amigo Modesto Higueras, acabou se entregando aos encantos de Lorca: “Rafael gostava de mulheres mais do que qualquer outra coisa, mas ficou preso naquela rede, preso em Federico. Ao momento que estava imerso em Federico, estava inconsciente sobre aquilo. Então ele tentou escapar, mas não conseguiu…”. Apenas uma carta trocada entre Lorca e Rapún foi encontrada, escrito nos nostálgicos dias do poeta na Argentina: “lembro-me muito de você. Deixar de ver uma pessoa com quem se teve no passado, durante meses, todas as horas do dia, é insuficiente para esquecer. Especialmente quando se tem uma forte atração por esta pessoa”. Tempos seguidos, Lorca volta da Argentina e a relação de ambos é retomada. Quando o poeta é convidado à Itália para um congresso teatral, a esposa de Ezio Levi, quem lhe estendeu o convite, informou que ele poderia ir com sua esposa, Lorca respondeu que era solteiro, mas participaria com seu “secretário pessoal”, Rafael Rodriguez Rapún.

O poeta nunca deixou de amar aquele rapaz, quem, segundo com alguns testemunhos, como os da escritora e esposa de Alberti, Maria Teresa León, ficou profundamente entristecido ao ouvir a notícia do assassinato de Federico. Rapún recebeu treinamento militar, paradoxalmente, na localidade da morte de Lorca, e dizem que se caminhou para morrer na frente do Norte, onde se encontrava bastante magro, em 18 de agosto de 1937, há exatamente um ano depois da morte García Lorca.

EDUARDO RODRIGUEZ VALDIVIESO: O “AMIGO” DE GRANADA

Foi o amigo de Granado de Federico, Rodriguez Valdivieso, que manteve as cartas do poeta até 1997 quando morreu. Ele era quatorze anos mais jovem que Lorca, era alto e bonito, com olhos escuros e uma sensibilidade à flor da pele. Ele trabalhava relutantemente em um banco da cidade de Granada, amava literatura, era pobre e infeliz. De acordo com Ian Gibson, assim que conheceu se apaixonou por Lorca, foi seu melhor amigo durante aproximadamente um ano, e o relacionamento uma das experiências fundamentais de sua vida.

Eles se conheceram em fevereiro 1932, em um baile à fantasia, no Hotel Alhambra Palace. Ele estava vestido como Pierrot e o poeta, de Dominó. Rodriguez Valdivieso recordou que a festa durou até o amanhecer: “beberam tanto que no dia seguinte, poucos se lembravam da passada aventura”.

O relacionamento é o conteúdo de uma das sete cartas que Lorca enviou ao amigo: “recebi sua carta, eu respondi de imediato, muito feliz que você lembrou-se de mim, porque eu pensei que você havia me esquecido. Eu, como sempre, lembro-me de você, quero ter notícias um laço de união com você”.

Em 18 de julho de 1936 Rodríguez Valdivieso visitou o Huerta de San Vicente para celebrar junto com seu amigo a festa de San Federico. Uma daquelas tardes terríveis de guerra e repressão, Federico desceu do seu quarto e disse que ela tivera um sonho perturbador: um grupo de mulheres que estavam em luto, possuía um crucifixo negro, com os quais ameaçavam veemente o poeta. lorca4

Rafael Rodrigues Rapun
 

 

 

Eduardo Rodriguez Valdiviesolorca5

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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