Fonte: Económico

Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, nascido em Lisboa em 1952, cresceu num meio familiar ligado ao sector financeiro, mas não foi por isso que se transformou num daqueles homens distantes, contidos e mais ou menos cinzentos que enformam a tradicional figura dos que estão ‘sentados’ em cima de pilhas de dinheiro. Pelo contrário: diz o que acha que deve dizer, tendo apenas um pouco mais que nada de preocupações com o politicamente correcto; comenta os factos e a actualidade política com a destreza dos que não precisam de saber antecipadamente da opinião dos outros; aponta o dedo ao que está errado no sector em que trabalha – numa manifestação de muito pouco corporativismo que os seus pares costumam apontar-lhe como o pior defeito; e gosta de uma boa gargalhada.

A sua ascensão à liderança do BPI – numa fase posterior à consolidação do projecto, liderada por Artur Santos Silva, que sempre lhe rendeu homenagem como banqueiro – só surpreendeu os mais distraídos: o avô paterno era administrador do Banco de Portugal, o materno estava ligado às áreas de corretagem e dos seguros e Ulrich tinha-se destacado como o ‘braço direito’ de Santos Silva no banco. Mas era muito novo, diziam os seus pares – um problema que costuma passar com a idade! – e demasiado impulsivo. Foi essa a impressão digital que quis imprimir na sua liderança: arrojo, liderança e inovação. Nada de salamaleques, portanto.

Fernando Ulrich fez os estudos primários e secundários na Escola João de Deus, no Monte Estoril, seguindo para o Instituto Superior de Economia e Gestão. Ainda estudante do ISEG, entrou para a redacção do Expresso, onde chegou a ser responsável pela secção de Mercados Financeiros, assinando textos com o pseudónimo de Vicente Marques.

Foi depois técnico do Secretariado para a Cooperação Económica e, posteriormente, assessor do embaixador de Portugal junto da OCDE, em Paris, como responsável pelos assuntos económicos e financeiros e, mais tarde ainda, chefe de gabinete dos ministros das Finanças e do Plano dos governos Balsemão, João Morais Leitão e João Salgueiro. Transitou em 1983 do gabinete ministerial para a Sociedade Portuguesa de Investimentos, com Artur Santos Silva, que vem a dar origem ao BPI e que representa o desafio de voltar a fazer surgir a banca privada em Portugal – juntamente com o BCP. É um desafio a que Ulrich não resiste: deixa todas as suas outras actividades para se concentrar no que verdadeiramente lhe interessava (e ia no sangue): a banca.

Em Abril de 2004, e já com o cargo de vice-presidente, Fernando Ulrich tornou-se presidente do BPI. Era aí que estava quando o mercado financeiro sofreu um vendaval inesperado (ou nem tanto): banca.

Em Abril de 2004, e já com o cargo de vice-presidente, Fernando Ulrich tornou-se presidente do BPI. Era aí que estava quando o mercado financeiro sofreu um vendaval inesperado (ou nem tanto): a OPA do BCP sobre o BPI. De alguma forma, eram duas gerações que, em duplicado, se confrontavam: Fernando Ulrich (herdeiro de Artur Santos Silva) e Paulo Teixeira Pinto (herdeiro) de Jorge Jardim Gonçalves. Um venceu e o outro perdeu.

A partir daí, Fernando Ulrich não teve de provar mais nada aos seus pares: passou a ser um concorrente com forte tendência para bater a concorrência nos mercados. Prova disso reside no facto de um estudo anual sobre a banca ter dado ao BPI, pela primeira vez, a liderança como marca mais bem aceite no país – poucos meses depois, o Banco Espírito Santo colapsava. Ulrich não terá sido o mais surpreendido dos portugueses: anos antes, o presidente do BPI deixava cair uma dos negócios bancários que parecia mais promissor: a fusão com o BES. As negociações pareciam estar bem encaminhadas – Manuel Pinho, futuro ministro da Economia, alinhava pela equipa do BES – o mercado assumia que apenas faltava o aperto de mão entre Ulrich e o muito mais poderoso Ricardo Salgado, e de repente tudo acabou. Quase sem explicações – como se, por um motivo vergonhoso, um casamento entre duas figuras da alta sociedade tivesse de ser desmarcado…

De então para cá, o BPI ganhou músculo, notoriedade e poder. Expandiu a marca (nomeadamente para fora do país), ganhou clientes (desde logo quando o BES fechou as portas com um ensurdecedor estrondo, mas já antes quando o BCP se envolveu em questões bem mais políticas que financeiras), e passou a ser uma referência do sistema financeiro português.

Os desentendimentos entre os accionistas do BPI pareceram passar sempre um pouco ao lado de Ulrich. E o mundo financeiro estava em absoluto convencido de que, qualquer que fosse o desfecho da guerra entre angolanos e espanhóis, Fernando Ulrich manter-se-ia firme na presidência do BPI.

Pelos vistos não vai ser assim e o homem que, aos seis anos, ao receber uma nota com a assinatura do avô por parte do pai, escolheu para seu futuro ser banqueiro, já pode estar a pensar no que vai fazer a seguir.
card_fernando_ulrich_2_100415

Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s