Fonte: Obvious – Mônica Montone

Esqueça Anna Karenina, a célebre personagem de Tolstói que, consumida por uma paixão não correspondida à altura de seu desejo, se jogou debaixo de um trem. Esqueça a moderninha Carrie Bradshaw de Sex and the City, que comeu o cupcake que o diabo amassou no inferno por não conseguir entender o Mr. Big.

Nenhuma paixão foi maior e mais avassaladora do que a da freira portuguesa Mariana Alcofarado por Noël Bouton, conde de Saint-Léger (marquês de Chamilly) e, portanto, nenhum engano foi maior que o dela, também.

Ufa, todas as mulheres estão redimidas de seus enganos depois da santa de Beja – essa foi a conclusão a que cheguei após a leitura de “Cartas de Amor”, de Sóror Mariana, publicado no Brasil em 1937, pela Edições Cultura Brasileira.

Comprei esse livro num sebo porque achei a capa bonita e acabei devorando as 142 páginas numa mordida só com a consciência de que degustava uma iguaria das mais raras.

Por volta de 1667, no Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja, em Portugal, uma jovem freira de 26 anos quebrou seus votos para viver um amor proibido com um capitão francês que por aquelas bandas passava. Mas se para ele o romance foi apenas uma aventura apimentada pelo gosto do proibido, para ela o buraco foi mais embaixo (como se vê nas cartas que enviou a ele).

Na época suas missivas foram publicadas sem que soubessem a autoria (e remetente) e, durante mais de 200 anos, especulou-se nos salões literários da França que se tratava de algum escritor célebre pregando uma peça em todos – até mesmo grandes pensadores, como Jacques Rousseau, discorreram sobre o assunto. Rousseau acreditava que as cartas tivessem sido escritas por um homem.

As cartas de amor de Mariana Alcofarado eram tão veementes e violentamente apaixonadas (com pitadas de amor, ternura, ódio, raiva, ciúme, desprezo, contradição) que, durante muito tempo, os europeus faziam alusão a elas quando queriam dizer que alguém estava se excedendo no amor. Era comum ouvir frases do tipo “vivo um amor à portuguesa”, ou “escrevi uma carta portuguesa”.

Somente em meados de 1800, após anos de dedicação e pesquisas do abade Luciano Cordeiro, a história se confirmou: Mariana Alcorafado foi colocada no convento pelos pais, aos 11 anos de idade, e fora a autora das cartas endereçadas ao marquês de Chamilly. Suas palavras se tornaram públicas porque o maquês confiou as cartas a um amigo, o conde de Guilleragues (talvez para vangloriar-se do feito) e este as publicou.

Quase nunca o objeto de amor de uma pessoa corresponde à realidade (traduzindo: o amor é cego), e com a freirinha não foi diferente. Sobre o Noël Bouton, marquês de Chamilly, consta nos autos que:

“O homem que motivara essa tempestade de amor não correspondia pela nobreza do seu espírito à grandeza daquele sentimento. De qualidades medíocres… O conde de Chammilly-Saint Léger depressa se aborreceu dos excessos sentimentais da freira e, receando conseqüências desagradáveis para a sua situação, para a sua carreira, para a sua vida, tratou de embarcar para a França, donde escreveu poucas e vagas missivas. Depois esqueceu-a, casou por conveniência, engordou, envelheceu, e foi Marechal da França. Nas suas ‘Memórias’, quando dá conta da nomeação de dez marechais em 1703, dizem dele: ‘Servia com reputação em Portugal e Candia. Vendo-o e ouvindo-o ninguém poderia persuadir-se de que tivesse inspirado um amor tão excessivo, como esse que é a alma das formosas cartas portuguesas. Era um homem forte, gordo, da melhor índole, valente e honrado, mas tolo e pesado (gros lourd et bête) que não se compreende como tinha superioridade nas ciências militares”.

Porém o que mais encanta nas linhas de sóror (tratamento usado para as freiras na época) Mariana não é a entrega do seu amor, tampouco a qualidade literária – atualmente suas cartas são consideradas obra-prima da literatura sentimental -, mas a sua coragem de escancarar toda a rejeição que sentiu sem medo de parecer ridícula, ignorando toda e qualquer vergonha ou humilhação.

Após ler o livro, tomada de curiosidade, recorri ao oráculo Google. Descobri que Vinicius de Moraes foi seu fã e que o pintor Matisse elaborou uma série de litografias com o que imaginava ser seu rosto. Que Mariana morreu aos 83 anos no convento e dedicou sua vida a pintar, orar e fazer doces.

Como dizia a freirinha,”ai de mim!” que sempre escrevi cartas à portuguesa e nem sabia disso!

Nunca mais escreverei um bilhete sequer, impunemente, depois de Mariana Alcofarado.

Se a paixão é a crença de que o outro tem o que nos falta, ouso dizer ( em análises bem rasas) que Mariana não se apaixonou pelo marquês de Chamilly e sim pelo que ele tinha e ela não: a liberdade. Talvez, “a adorável pecadora” – como ficou conhecida – tenha na verdade se apaixonado pela ilusão de que ele a tiraria do convento. Mas o que isso importa?

FALANDO NISSO

A história de Mariana Alcofarado virou filme em 2015 com o título “Les Lettres de la Religieuse Portugaise”. A película de Bruno François-Boucher e Jean-Paul Seaulieu foi selecionado para o Festival International du Film du Patrimoine de Vincennes, na França, para o Titanic International Festival, na Hungria, e o Alexandria Film Festival for Mediterranean Countries, no Egito. Ainda sem previsão de estreia no Brasil.

FRAGMENTOS DE “CARTAS DE AMOR”:

“Cessa, cessa, ó Mariana desditosa, de consumir-te em vão, e de procurar um amante que jamais tornarás a ver, que passou os mares para fugir de ti, que vive em França, entregue as suas delícias, e que nem um só momento cuida nas tuas mágoas, que te despensas de todos esses transportes, e não sabe agradecer-tos”…

“Conjuro-te de dizer-me para que te aplicaste com tanta eficácia a encantar-me como fizeste, sabendo mui bem que devias abandonar-me?”…

“Resisto a todas as aparências que deveriam persuadir-me de que mui pouco amor me tens e sinto maior propensão a abandonar-me cegamente à minha paixão, do que às razões que me oferece para queixar-me da tua falta de atenção e cuidado”…

“Quanto custa resolver-nos a suspeitar longamente da boa fé daqueles que amamos!”…

“Ignoro porque motivo te escrevo…Vejo que apenas terás dó de mim, e eu rejeito a tua compaixão, e nada quero dela”…

“Todas estas desgraças atribuo à cegueira com que me abandonei a amar-te. Não devia eu prever que todo o meu contentamento feneceria mais depressa que o meu amor?”…

“Sentia demasiada satisfação de estar contigo, para poder lembrar-me de que um dia te acharias longe de mim”… “Todos se comovem do meu insano amor… e tu só, tu permaneces em profunda indiferença… sem escrever-me senão cartas frias, cheias de cansadas repetições, que nem enchem a metade do papel, dando a conhecer grosseiramente que morrerias da impaciência de findá-las”…

“Nada quero de ti que não seja espontâneo e de teu próprio movimento – rejeito todas as provas de amor que constrangido me deres”…

“Me sinto em estado de poder rasgar e queimar os penhores do teu amor”…

“Confesso, com vergonha minha e tua, que me achei mais apegada do que quero dizê-lo, a estas ninharias, e que senti serem-me de novo necessárias todas as minhas reflexões para desembaraçar-me de cada uma em particular, quando já me lisonjeava de não ser-te mais afeiçoada”…

“Só conheci bem o excesso do meu amor, depois que quis fazer todos os esforços para curar-me dele”…

“Deixei-me encantar por qualidades muito medíocres”…

“Vivi muito tempo em um abandono e em uma idolatria que me horrorizam, e os meus remorsos perseguem-me com um rigor insuportável”…

“Sou uma insensata em repetir-te as mesmas coisas tantas vezes… É necessário deixar-te, e desviar de ti para sempre o pensamento. Creio mesmo que não tornarei a escrever-te… Acaso tenho obrigação de dar-te exata conta de todos os diversos movimentos do meu coração?”

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Autor: sinfoniaesol

A vida deve ser vivida intensamente. Sempre foi esse o meu lema.

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