Fonte: Sol online

Depois de Jean-Claude Juncker ter pedido uma consulta ao gabinete de ética sobre o cargo de administrador não executivo do Goldman Sachs, Durão Barroso respondeu por carta a Bruxelas.

No documento, a que o Financial Times teve acesso, o antigo presidente da Comissão Europeia acusou a instituição de estar a ser “discriminatória” e “inconsciente”.

“Tem sido entendido que o mero facto de estar a trabalhar para o Goldman Sachs levanta questões de integridade. Embora respeite que todos têm direito à sua opinião, as regras são claras e devem ser respeitadas. Estes protestos não têm qualquer base nem qualquer mérito. São discriminatórios para mim e para o Goldman Sachs”, defende Durão Barroso.

Recorde-se que o ex-presidente da Comissão Europeia será tratado como lobista – representante de interesses privados – depois de ter aceitado o cargo de administrador não executivo do Goldman Sachs International.

Em relação à nova consulta, Durão Barroso “gostaria de perceber como esta decisão foi tomada, por quem e em que condições. Não só são ações discriminatórias como parecer ser inconsistentes com as decisões tomadas em relação a outros antigos membros da Comissão Europeia”, como a antiga comissária para a Política Digital Neelie Kroes, que foi nomeada em maio como uma das conselheiras da Uber.

“Nunca reclamei uma posição privilegiada, mas não esperava esta discriminação”, concluiu.

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Fonte: JN online

A candidatura de Giorgieva também poderá avançar, segundo algumas notícias, sob proposta conjunta da Hungria (liderada por quem é visto como “demagógico, xenófobo e autoritário”), Letónia e Croácia e o apoio da Alemanha.

Mónica Ferro, especialista em assuntos das Nações Unidas, disse ontem ao DN que as notícias e a eventual confirmação de uma candidatura-surpresa a secretário-geral “põem em causa quase tudo” o que levou a ONU a optar por um processo de escolha e seleção “competitivo, transparente e responsabilizável”. Ainda por cima, lamentou a professora universitária e ex-deputada, “sem haver razão, porque” – à luz dos resultados das votações já realizadas – “não há um bloqueio ou um impasse” entre os candidatos existentes e a de Guterres “mostra uma adesão muito forte, que foi reforçada” na sexta-feira.

Outra questão que se coloca com o aparente apoio alemão a Giorgieva quando há países da UE com candidatos próprios é interna a Bruxelas. “A ser verdade, mostra uma grande fragilidade na coordenação do que deveria ser uma área importante da diplomacia europeia”, frisa Mónica Ferro. Se as duas primeiras votações levaram à desistência de dois dos 12 candidatos, as duas seguintes não produziram o efeito esperado e que justificou a adoção desse modelo de eleição: é que mais ninguém desistiu, mesmo quem teve 12 votos negativos em 15.

Com Bruxelas a considerar “especulação” as notícias sobre o assunto e o chefe da diplomacia russa a reunir-se ontem com o embaixador búlgaro em Moscovo, com quem falou de “diversos aspetos da ONU”, voltaram a surgir na imprensa referências ao alegado apoio de Durão Barroso a Giorgieva numa reunião do grupo de Bilderberg em junho – desmentidas na altura pelo ex-presidente da Comissão Europeia.

Críticas de Seixas da Costa

O embaixador Francisco Seixas da Costa insurgiu-se ontem contra “o papel que setores do Partido Popular Europeu [centro-direita] estão a desenvolver” contra a candidatura de Guterres, tentando criar condições” para que Kristalina Georgieva “surja rapidamente na liça”.

Sabia-se, refere o embaixador no seu blog Duas ou Três Coisas, do papel do PPE para levar Georgieva a Bielderberg e foi também “claro” que Jean-Claude Juncker tentou “promover a búlgara junto dos russos, ao tê-la levado consigo a Moscovo, num contexto sem sentido”. Mais recentemente, recorda, o chefe de gabinete da Comissão Europeia declarou na sua conta oficial nas redes sociais o forte desejo de ver Georgieva na ONU.

“Last but not least, sabe-se agora da campanha desenvolvida por Angela Merkel, durante o recente G20 na China, no sentido de tentar criar uma onda de fundo em favor da ainda comissária, por forma a conseguir travar Guterres”, afirma ainda Seixas da Costa no seu blog.

Em jeito de desafio, o embaixador refere ainda que “era muito importante que, em Portugal, o PSD, além de dar conta da sua indignação sobre as limitações à ação empresarial de Durão Barroso nos corredores da Comissão Europeia, também expressasse publicamente o repúdio ativo a estas manobras desenvolvidas contra o candidato português, e que formalmente apoiou”.

Guterres com menos um adversário na corrida para a ONUng7582948