Bela reflexão do psicólogo Raffaele Morelli, que é também psiquiatra, psicoterapeuta, filósofo e ensaísta italiano.

“Acredito que o cosmos tem a sua própria maneira de equilibrar as coisas e as suas leis, quando elas estão perturbadas.
“… Num momento histórico em que certas ideologias e políticas discriminatórias, com fortes referências a um passado mesquinho, estão a ser reativadas em todo o mundo, chega um vírus que nos faz experimentar que, num instante, pode-nos tornar os discriminados, os segregados, os presos na fronteira, os portadores de doenças, mesmo que a culpa não seja nossa, mesmo que sejamos brancos, ocidentais e a viajar em classe executiva.

Numa sociedade baseada na produtividade e no consumo, em que todos corremos 14 horas por dia atrás do desconhecido, sem sábados nem domingos, sem mais vermelhos no calendário, de um momento para o outro, vem a paragem.
Parados, em casa, dias e dias para contar com um tempo cujo valor perdemos, se não for mensurável em dinheiro.
Ainda sabemos o que fazer com ele?

Numa fase em que o crescimento dos filhos é, por necessidade, muitas vezes delegado a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e obriga-as a encontrar soluções alternativas, para voltar a colocar mães e pais junto dos filhos. Obriga-nos a começar uma nova família.

Numa dimensão onde as relações, a comunicação, a sociabilidade são jogadas principalmente no “não-espaço” da rede social virtual, dando-nos a ilusão de proximidade, o vírus tira-nos a verdadeira proximidade – sem tocar, sem beijar, sem abraçar, à distância, no frio do não-contacto.

Quanto é que tomámos estes gestos e o seu significado como garantidos?

Numa fase social em que pensar no próprio umbigo se tornou a regra, o vírus envia-nos uma mensagem clara: a única saída é a reciprocidade, o sentido de pertença, a comunidade, o sentimento de fazer parte de algo maior para cuidar e que pode cuidar de nós. A responsabilidade partilhada, o sentimento de que o destino não só o vosso, mas de todos à vossa volta, depende das vossas acções. E que tu dependes deles.

Então, se pararmos de fazer caça às bruxas, pensando de quem é a culpa ou por que tudo isso aconteceu, mas pensando no que podemos aprender com isso, acho que todos nós temos muito o que pensar e nos comprometer.
Porque com o cosmos e suas leis, obviamente, temos uma dívida de gratidão.
O vírus está a explicar-nos, a um grande custo”.

Autor: sinfoniaesol

Viver é o mais importante de tudo e se for com amizade, amor e saúde, que mais pedir?Viva a Vida!!!

Um pensamento em “”

  1. Olá,Irene.

    Longo tempo é já passado desde a última vez que aqui deixei um comentário: o mesmo tempo decorrido desde que abandonei e fiz delete ao blogue – por falta de vontade e disponibilidade mental, resultantes de problemas de saúde. Mas hoje, ao ler o mais recente post, não resisti à tentação de aqui deixar alguma coisa sobre o tema: o malfadado covid 19.

    O que Raffaele Morelli escreve sobre o assunto que a todo o mundo preocupa e causa terrível angústia nos dias de hoje é de uma enorme lucidez, e também uma grande verdade – para todos aqueles que não se recusem a encarar de frente esta realidade que nós, seres humanos, ao longo dos tempos fomos criando: A mim, apetece-me dizer que criámos um mundo de ilusão e fantasia, à medida dos nossos caprichos e desejos, e também, ao que parece, insustentável…

    Muito bem escolhido o tema, Irene.E não desista de manter o blogue!

    E despeço-me com um beijinho e votos de felicidade

    Vitor Chuva

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