SOPHIA ANDRESEN – poetisa portuguesa

A exposição de textos, fotografias e outros objectos com que aqui se evoca a vida e a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) surgiu como um prolongamento natural da doação do espólio, pela sua família, à Biblioteca Nacional de Portugal, primeiro passo para a abertura do acesso de um público amplo a uma parte importante, de quase todos desconhecida, dessa vida e obra. A colecção mais volumosa do espólio é constituída por manuscritos de textos publicados e inéditos, de poesia e de prosa, inacabados ou em mais de uma versão, e por reflexões sobre poética ou sobre a experiência de escrever. [¿] Vale ainda a pena notar a relativa escassez de poemas inéditos, dos quais muitos não são mais do que esboços, inícios de qualquer coisa que não surgiu, ou até simples apontamentos de ideias. Sophia guardou muitas versões de trabalho, mas, para ela, o destino natural do poema acabado era a publicação. Se a poesia foi a sua maneira de viver, não a tratava como coisa sua. Escrevia para si e para o mundo.

Anúncios

3ª.feira de Carnaval e Dia Internacional da Mulher

Por coincidência hoje é terça-feira de Carnaval e Dia Internacional da Mulher.
Para todas as mulheres que sofrem ou riem, que hoje tenham momentos felizes.

Para a minha irmã uma mulher que tem sofrido muito a nível de sérios problemas

de saúde (entre outros cancer) mas que sempre lutou para viver e dedicar a sua

vida a cuidar dos filhos, neta e agora bisnetos vai o meu grande beijo extensivo

a todas as outras mulheres.

Fevereiro a Florir

 

Que te pareces comigo,
Árvore do meu jardim,
Já eu tinha percebido,
Uma irmã igual a mim.

Mas agora foi demais,
Ver tuas mimosas flores
Nos ramos secos e nus,
A atrair admiradores!

Lesta corri para casa
Em busca do calendário.
Estamos no último dia
Deste Fev’reiro tão vário.

Peguei depois na caneta
E rabisquei no papel
Estes tão singelos versos
De rima sóbria, fiel.

Porque os q’ria escrever hoje,
Antes de tu, abrunheiro,
Te enfeitares de brancas flores,
Foi desejo verdadeiro.

Modestas as redondilhas,
Flores artificiais,
Não se comparam às tuas,
Formosas e naturais.

Imploro ao Senhor Meu Deus
Para te rever assim.
Sei que me vais encantar
Bela árvore do jardim!

(Maria da Fonseca)

 

 

(do blogue:
http://poesiadanatureza.blogspot.com
que sugiro visitem)

CÍRCULO DE MULHERES

Veio primeiro o tempo
em que, pela boca das mães,
se conhecia o aroma do leite
e os filhos, de lábios atravessados
pelo mel, moldavam com sangue
o próprio rosto.
Agora, como num feitiço,
as mulheres rodam em círculo
de mãos dadas.
Dentro da roda permanecem os filhos
que elas protegem com o olhar
para que não venha cegá-los a lua cheia.

(gentilmente cedido por
GRAÇA PIRES do blogue:

http://olhoscordemel.blogspot.com

que convido a visitarem.)

SONHO

…e lá fora o mar revolto, nas pedras batia. Pela vidraça da janela olhava a fúria das ondas que

fazia com que mar espingasse distante, ao ir de encontro ao cais. Os barcos que avistava na

penumbra da noite, pareciam gemer a cada açoite. Não havia velas, nem  mastros, apenas

os barcos tremulavam ao ritmo desesperado das ondas.
Ali fiquei a acompanhar o marulhar, a natureza e seus movimentos inimagináveis, mas de rara e

 angustiante beleza. O vento úmido parecia umedecer minha alma. E nesse transe, era evidente a minha

angustia a me questionar: por que tanta fúria, tanto desespero?
Não sei por quanto tempo ali fiquei, mas sei, que nesses instantes, por terras distantes viajei. Embarquei

 numa viagem sem rumo, sem destino, mas você estava lá, do outro lado do cais a me aguardar.
Ao acordar percebi; não havia ondas, nem mar. Apenas os meus olhos a marejar. Olhei a minha volta, o dia

 amanhecia, estava só. O barulho das ondas continuava a ressoar em meus ouvidos, porém, o mar mais

calmo, o vento soprando de mansinho. Esfreguei os olhos e pensei: deve ter sido um sonho.
Fiquei ali parada por instantes, tentando entender. Olhei dentro de mim vi os barcos que atravessavam o

 tempo levando os sonhos, as ilusões e aportei em terra firme. Lá fora estava a vida, me convidando a

viver, meu amor a me esperar e novos sonhos a sonhar…

gentilmente cedido por:

LÚCIA LABORDA do blogue:

http://olhoscormel.blogspot.com

que convido a visitarem.

Falando de Neruda…

(as cartas que escreveu a Rosário,com quem casou em 1967).Em Portugal Editor:

DOM QUIXOTE.Edição deste ano. 285 páginas.

Detalhe ilustrado de uma das cartas de amor de Neruda.Na Espanha, a editora Seix Barral acaba de lançar em livro as mais desesperadas e intensas cartas de amor de ninguém menos do que Pablo Neruda. Foram todas endereçadas a Matilde Urrutia, amante do poeta por 27 anos e musa inspiradora de Os versos do capitão (Bertrand) e Cem sonetos de amor (L&PM). Durante sete anos os dois mantiveram uma relação clandestina, enquanto Neruda ainda era casado com a artista plástica argentina Delia del Carril. Com o divórcio em 1955, viveram juntos até a morte do poeta, em 1973.

Passados dezenas de anos do falecimento de um autor célebre, muitas vezes resta apenas como opção aos editores, após haver publicado já o último dos manuscritos descartados (O original de Laura, de Nabokov, é o exemplo mais recente), chafurdar na correspondência pessoal do morto, último desvão de material inédito.

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

O FUTURO É ESPAÇO
O futuro é espaço,
espaço da cor da terra,
da cor da nuvem,
da cor da água, do ar,
espaço negro para muitos sonhos,
espaço branco para toda a neve,
e para toda a música.

Atrás ficou o amor desesperado
que não tinha lugar para o beijo,
tem lugar para todos no bosque,
em plena rua, em casa,
tem sítio subterrâneo e submarino,
que prazer é achar, por fim,
subindo
um planeta vazio,
grandes estrelas claras como a vodca
tão transparentes e desabitadas,
chegar com o primeiro telefone
para que falem mais tarde outros homens
de suas enfermidades.

O importante é apenas perceber-se,
gritar desde uma dura cordilheira
e ver numa outra ponta
os pés de uma mulher recém-chegada.

Adiante, vamos sair
do rio sufocante
em que com outros peixes navegamos
desde a manhã à noite migratória
e agora neste espaço descoberto
vamos voar para a pura solidão.