Clarice Lispector descreveu a mulher de uma forma tão completa, intimista e absoluta, que as epifanias de seus contos ultrapassaram os limites do papel. Ana Favorin

Clarice Lispector, é sem dúvida, uma das mais brilhantes mentes da nossa literatura. Dona de uma personalidade forte, de um sarcasmo finíssimo e de uma história singular, Clarice descreveu a mulher por dentro, de dentro. Foi filha, mãe, esposa, ex-esposa. Enfim, Clarice Lispector foi essencialmente mulher.

Em “Laços de Família”, obra publicada em 1960, Clarice explorou sua concepção de mulher em relação à sociedade e à instituição familiar. O livro conta com treze contos, dos quais 8 mantêm o enfoque sobre a figura feminina.
clarice
Um dos contos presentes no livro é “preciosidade”, que narra a história de uma menina, prestes a completar 16 anos, que sentia-se preciosa como uma joia. Usava sapatos com saltos de madeira que faziam um estrondoso barulho por onde passava, não tinha vaidade aparente e sentia um gigantesco medo dos homens.

Como é de costume nos contos de Clarice Lispector, há uma epifania na narrativa que se dá numa manhã em que a menina sai mais cedo para a escola e se depara com dois homens que a tocam. Algo na garota está mudado, ao sentir o toque sentiu-se modificada, mesmo que não soubesse exatamente o que isso queria dizer. Após o acontecimento a personagem chega em casa e pede aos pais sapatos novos: “— Preciso de sapatos novos! os meus fazem muito barulho, uma mulher não pode andar com salto de madeira, chama muita atenção! Ninguém me dá nada! Ninguém me dá nada!”

Ao fazer uma breve análise do conto é possível inferir que a preciosidade guardada pela menina, o som de seus sapatos, o toque inesperado e o pedido por sapatos novos, simbolizam respectivamente a virgindade, os traços de mulher que já chamavam alguma atenção, a iniciação sexual e uma espécie de amadurecimento, onde a personagem se dá conta de sua condição e tenta modificá-la.

De forma não menos brilhante que o esperado, o conto se encerra numa crítica sutil aos padrões sociais que presam a mulher virgem e pura, que negam a sexualidade a tal ponto que só a admitem quando já não lhes é possível negá-la.

“Até que, assim como uma pessoa engorda, ela deixou, sem saber por que processo, de ser preciosa. Há uma obs­cura lei que faz com que se proteja o ovo até que nasça o pinto, pássaro de fogo. E ela ganhou os sapatos novos.” Clarice Lispector.

Com essa visão que abre a mulher para o leitor de uma forma tão franca e pura, Clarice Lispector cumpre seu papel humanizador nessa arte verbal e perene chamada literatura, colocando diante de nós, escancarada, a sensibilidade que inúmeras vezes não temos.

fonte:OBVIOUS

Depois do sucesso do livro Show Me Rio, Rita Sousa Tavares decidiu manter os ingredientes e aplicou a receita à cidade de Lisboa. “O livro anterior foi mais trabalhoso, já que estava à procura da fórmula. Agora, foi só manter. Tive de procurar por outros temas e escolher aqueles que ilustram mesmo a cidade. Optei por 15 temas e por alguns lisboetas que os dessem a conhecer. Fiquei a conhecer uma Lisboa mais verdadeira e completa, que até sabia que existia, mas estava nos confins da minha memória. Esta é realmente uma cidade maravilhosa pouco aproveitada por todos nós”, disse a autora.
A apresentação teve lugar na Casa do Alentejo e juntou dezenas de amigos e muitos familiares da autora, com especial destaque para o marido, Ricardo Salgado, filho mais velho do banqueiro Ricardo Salgado. Como seria de esperar, Ricardo não quis conversar com a comunicação social, nem mesmo sobre este novo projeto da sua mulher. “Peço imensa desculpa, respeito imenso o vosso trabalho, mas não vou fazer nenhum comentário”, justificou.
Miguel Sousa Tavares, pai da autora, esteve presente na companhia da mulher, Teresa Caeiro, e reconheceu estar orgu­lhoso deste projeto: “Este é um projeto muito giro, uma ideia muito bonita e engraçada. Como profissional do mesmo ofício, acho que me consigo distanciar do facto de a Rita ser minha filha, mas, como é óbvio, tudo o que os nossos filhos fazem é superlativo [risos].”
Apesar de ser alentejano, Nicolau Breyner foi um dos ‘lisboetas’ que deu a conhecer os seus recantos preferidos da cidade neste livro. “Este livro é surpreendentemente bonito. Sou um alentejano convicto, mas sou também um lisboeta, costumo dizer que esta é a cidade mais bonita do mundo e a única onde eu viveria. Fizemos este passeio há seis meses e visitámos alguns dos locais de que mais gosto”, contou o ator.
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, fez questão de estar presente, embora compromissos profissionais o tenham obrigado a sair prematuramente do evento: “Um livro como este é muito importante para a nossa cidade. Só posso dar os parabéns à Rita e desejar muito sucesso por este livro, que tem muita qualidade e vai com certeza ajudar muito a puxar pela cidade.”
fonte: Caras Online2014-12-26-VF_LivroRitaSousaTavares_0222

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Fonte: OBVIOUS(Felipe Faverani)

“Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores. […] Que fresco, que calmo, mais que o de hoje, não era então o ar da manhãzinha; como o tapa de uma onda; como o beijo de uma onda; frio, fino, e ainda (para a menina de 18 anos que ela era em Bourton) solene, sentindo, como sentia, parada ali ante a janela aberta, que alguma coisa de terrível ia acontecer;”.

O trecho acima, da página de abertura de “Mrs. Dalloway”, quarto romance da escritora britânica Virginia Woolf, diz muito; sobre obra e autora, indubitavelmente.

Nesse livro de enredo simples, Virginia, ela própria perscrutadora assídua dos mistérios relativos à existência, transforma seu leitor em investigador da condição humana; deixa pistas por caminhos sinuosos, rochosos, obscuros; leva a indagações maiores: que ou quem se quer encontrar por entre as páginas da obra – a si mesmo ou a própria Virginia?

Nascido a partir da fusão de dois contos, “Mrs. Dalloway em Bond Street” e o não finalizado “O Primeiro Ministro”, “Mrs. Dalloway” veio a público pela primeira vez na primavera de 1925.

De estrutura narrativa semelhante ao “Ulysses”, de James Joyce, publicado em 1922, “Mrs. Dalloway” narra um dia na vida de uma aristocrata britânica, Clarissa Dalloway, esposa de um deputado conservador e mãe de uma jovem de dezessete anos.

Em meio aos preparativos de uma festa da qual será a anfitriã, Clarissa depara-se alternadamente com eventos e pessoas do passado que a forçam a refletir sobre o tempo presente e sobre o que teria sido de sua vida se porventura suas escolhas tivessem sido outras que não aquelas que a sustentavam; se tivesse renegado os moldes das convenções sociais que lhe davam forma. Quem era, afinal, Clarissa Dalloway, despida de tais adereços? “Era um vazio perto do centro da vida; um sótão. As mulheres devem deixar seus adornos. Ao meio-dia devem despir-se”, diz Virginia, catedrática, longe sequer da metade de sua obra.

Por meio de uma alternância constante entre o discurso direto, o indireto e o indireto livre, que tornam ímpar o desenvolvimento do fluxo de consciência das personagens de Woolf, a autora mergulha no âmago de suas criaturas a fim de expor sentimentos como que indizíveis. São tão inúmeras e tão contraditórias as aflições que assomam Clarissa Dalloway, ou a própria Virginia, que a autora cria, como que a partir de sua costela, o seu duplo, Septimus Warren Smith, a outra personagem central do livro, para personificar a contradição.

Septimus, veterano da Primeira Guerra Mundial, casado com uma imigrante italiana, é uma personagem com profundas cicatrizes psicológicas resultantes principalmente da morte de um seu companheiro de conflito, Evans – imagem de um desejo que o assombra.

Embora pudesse ainda ver beleza em toda magnitude e diversidade da vida que lhe saltava aos olhos, tal como Clarissa Dalloway, que constantemente reafirma seu amor à vida como que a fim de se convencer de que realmente a ama, a ele, Septimus, o belo não era suficiente. “Não desejava morrer. A vida era boa. O sol aquecia. Se não fossem os humanos…”, relata Virginia, numa das passagens mais pungentes de todo o livro. Aqui, caberia o ditado estoico: “O destino guia quem consente e arrasta quem recusa”. Septimus segue, inexoravelmente, para o suicídio. As duas personagens centrais da história nunca se encontram.

Ambientar a incompatibilidade de Clarissa e Septimus em um mesmo espaço, a Londres da década de 1920, poderia ser compreendido como uma alegoria que convida a refletir sobre os conflitos internos do humano e a impossibilidade de uma unicidade do Eu? Para Virginia Woolf, poderia ser a escrita uma tentativa de suportar a multiplicidade de si mesma? A essa indagação, a autora responde na forma de narradora onisciente:

“E ela experimentava continuamente a sensação das suas existências; e achava isso um desperdício; uma pena; se ao menos se pudessem juntar… era o que tentava. E isso era uma oferenda; combinar, criar; mas oferenda a quem?”

Oscar Wilde, no prefácio de seu único romance, “O Retrato de Dorian Gray”, categoricamente afirma: “Toda arte é absolutamente inútil”. Não pensaria Virginia a mesma coisa sobre a existência? O que faz pensar: as flores que Mrs. Dalloway prontificou-se a comprar, logo no início do romance, seriam para uma festa em celebração da vida, ou para um ritual de preparação para a morte?

“Mrs. Dalloway” é um romance ambíguo, contraditório. Ao mesmo tempo que nele as personagens tentam, a todo custo, encontrar-se em si mesmas, desejam a fuga daquilo que são e dos outros que também as formam.

“Não somos todos uns prisioneiros? Lera uma peça maravilhosa a respeito de um homem que escrevia na parede da sua cela, e ela achava que essa era a verdade da vida: a gente escrevia coisas na parede”. (Virginia Woolf)

antiga ediçãocena fo filmeVirginiaWoolf
Cena do filme “Mrs. Dalloway”, de 1997, com Vanessa Redgrave no papel de Clarissa Dalloway
Virgini aWoolf.jpg A escritora britânica Virginia Woolf, uma das principais expoentes do Modernismo inglês

O LAGO – Ana Teresa Pereira


O Lago
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-641-266-1
Ano de publicação: 2012

Nos últimos livros de Ana Teresa Pereira, o teatro vem ocupando um lugar cada vez mais importante na densa rede de referências simbólicas da autora. Mas é em O Lago que se esbate de vez a fronteira – porosa e vagamente assustadora – entre palco e vida. Se na novela anterior (A Pantera), uma escritora (Kate) transformava o actor com quem se envolvia (Tom) em personagem de ficção, desta vez há um dramaturgo e encenador (também chamado Tom, o mais recorrente dos nomes-fétiches de ATP) que pretende converter uma actriz na própria essência da fugidia protagonista da sua peça. «Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa», diz-se a propósito de Kate em A Pantera. Essa quase equivalência torna-se agora absoluta, através de uma subtil reformulação da frase: «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.»
Na primeira parte do livro, assistimos à aproximação entre Jane, uma actriz mediana, ex-bailarina que transporta a marca do seu falhanço (um dia caiu do palco e feriu o tornozelo; por isso coxeia ligeiramente quando se sente «perdida» ou «com medo»), e Tom, o dramaturgo/demiurgo à procura de transcendência: «Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo.» Obsessivo, ele imaginou uma mulher na cabeça, no papel, e necessita de um corpo que se lhe adapte, «material para ser modelado». Os sinais estão todos à vista. A Tom, «sempre o seduzira a história de Pigmalião». Ou seja, só concebe amar um ser por si criado. E se escolhe Jane, apesar da sua inexperiência, é porque ela tem «alguma coisa de Audrey Hepburn» (a protagonista de My Fair Lady).
A peça de Tom decorre num só cenário (alpendre, paisagem de neve, lago ao fundo), com um homem e uma mulher a conversarem «em terreno familiar», e depois «mais fundo, onde fazia escuro, era perigoso, e não havia caminho de volta». Para que o enigmático texto liberte a sua corrente subterrânea de horror («mas talvez houvesse felicidade no horror»), é preciso que Jane seja «completamente» a personagem e passe «para o outro lado». Uma metamorfose que acontece no lugar onde a peça foi escrita: a única casa de um «vale maldito», isolada do mundo pelos rigores do Inverno. É ali que Tom esculpe tudo: um passado, memórias, gestos; um dia que se repete, sempre igual. Esta aproximação a «algo de abstracto» (talvez divino) exige uma «espécie de loucura», o fechamento num território assombrado. E na literatura portuguesa ninguém conhece melhor tais rarefeitas paragens do que Ana Teresa Pereira.

Fonte:bibliotecariodebabel.com

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Este livro ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa
de Escritores, no valor de 15 mil euros.