Chamo-me Angústia de Rosa Maria(cedido)

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Chamo-me angustia…frágil sombra…vestida de noite
No meu rosto…traços de amargura…cinzas do tempo
E no meu corpo este silêncio…leve sopro de morte
Gravado no tempo…tatuado na alma…eterno lamento

Trago nas mãos tempestades…o inferno…e este vazio
Revolvo a terra…procuro na mulher…o raio e o trovão
Amordaço o que resta de mim…quase nada…apenas frio
Não tenho antes nem depois…apenas tempo e solidão

Sou mulher…trago comigo as dores da terra amordaçadas
Os anseios do futuro…as dores do passado… as lágrimas
Os segredos e os medos…de todas as mulheres caladas
Todas as promessas…todos os sonhos e todas as mágoas

Tenho as mãos vazias de esperança na dança breve da vida
Sou uma sombra…quase amor…quase dia…mas apenas noite
Chama ténue…restos de nada e sobras do tempo…só e perdida
Profundo abismo…entre o ser e o querer as amarras do ontem

Nos meus versos há um hino de amor…escombros e solidão
Uma dor rasgada…uma ternura…no meu peito a soluçar
Há meu amor…um grito tão profundo…um sonho…uma ilusão
Uma noite tão vazia…esta amargura…esta mágoa no meu olhar

Entre mim e a noite…os braços…gestos breves amargos
Não sei quem sou…nas entranhas da terra foi onde nasci
Trouxe nas mãos um poema…nos dedos…silêncios vagos
Sou a filha de todos os instantes…sou o principio e o fim

(Sugiro uma visita ao seu excelente blogue:
http://rosasolidao.blogspot.pt

A PORTA


A Porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo

Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa…)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

Vinícius de Moraes. A Porta. In: A Arca de Noé. 2ªed. Rio de Janeiro, Liv. José Olympio Ed.,1974.p.35-6

A Evocação de Sophia de Alberto Vaz da Silva (Assírio e Alvim)

Foto de Eduardo Gageiro

2009), com prefácio de Maria Velho da Costa e posfácio de José Tolentino Mendonça, é um livro belíssimo feito de uma devoção intensa em relação a uma das pessoas mais extraordinárias da cultura portuguesa contemporânea. A poesia pátria, que teve no século XX um momento especialmente rico, como um dia reconheceu João Bénard da Costa, ao duvidar que tivéssemos sido sempre um país de poetas, tem em Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) um caso muito sério de talento e sensibilidade. E nesta evocação o que se sente, fundamentalmente, é a pessoa, como ser inseparável da sua condição de poeta. E se falei de devoção, o certo é que em nada esta perturba a limpidez e a verdade que o autor nos dá e que nos permite relembrar a poeta

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(Poesia de Sophia)

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lembra-te de mim – ROSA MARIA (cedido)

Lembra-te de mim…quando ouvires o pranto das rosas…eu parti
Quando nos teus sonhos não sentires a ternura do meu coração
Quando o silêncio gritar…sou eu amor do céu a chamar por ti
Quando ouvires um triste fado…são os acordes da minha solidão

Lembra-te de mim…quando a noite chegar e o sol se esconder
Quando ouvires o pranto da madrugada…é o eco minha saudade
Quando sentires na boca o perfume das rosas…sou eu a morrer
Quando ouvires o meu nome…esquece-o…já se fez eternidade

Lembra-te de mim…quando a poesia não gritar meus lamentos
Quando as minhas mãos nas tuas arrefecerem…sou eu a partir
Quando meus olhos ficarem mudos…apagados de luz sedentos
Quando sentires uma lágrima…é a minha alma para ti a sorrir

Lembra-te de mim…quando de mim nem um poema restar
Quando dos meus dedos inertes…se esfumarem as prosas
Na minha boca se calarem as palavras…deixar de sonhar
Quando sentires uma lágrima…sou eu a partir com as rosas

Lembra-te de mim…quando ouvires um magoado lamento
Quando sentires no teu corpo calor…é o meu que te quer
Quando os teus olhos chorarem…sou eu a ir com o vento
Quando escutares o silêncio…são os meus braços de mulher

Lembra-te de mim…quando na noite olhares a lua…sou eu
É o meu rosto que vês…envolto no sorriso do meu olhar
Quando adormeceres…recorda quem por amor se perdeu
Sente-me nas gotas de chuva…quando a saudade te tocar

Escrito por : ROSA MARIA

Rosa Maria(ou Sonhadora) é uma óptima poetisa. Seus poemas são muito acarinhados e sentidos pelos
seus seguidores tanto no seu blogue como na sua página do Facebook(Rosa Maria). Tenho muito
orgulho em que seja a Madrinha deste blogue.
O seu blogue: http://rosasolidao.blogspot.com

Florbela Espanca / Veneza: uma cidade criada por quem a vê

em Poemas por Rodrigo Della Santina em 18 de mai de 2012 às 23:52
O raro gosto de Florbela…

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar…
Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar,
Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!
Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus.
O amor dum homem? Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem, quando eu sonho o amor de um Deus?
Fonte: Obvious

Se não “a mais…”, Veneza é talvez “uma das mais” literárias e representadas cidades da
Europa. É por certo, impossível listar a fortuna literária, artística e histórica cujo
pano de fundo é estampado por esta cidade, sempre referida pelos seus canais onde navegam, além de suas célebres gôndolas, mistérios e mitos populares.

Desde o século XV e XVI, a “Sereníssima”, como era conhecida a atual cidade de Veneza, antes uma República pacífica, tinha ares de “recinto de férias e descanso”. As águas que a recortam e perpassam são entendidas como verdadeiros atores de influência em sua cultura, hábitos cotidianos e, inclusive, produção artística. Veneza teve uma produção artística rival da de outra grande República italiana, Florença. Os florentinos defendiam o primado do desenho; já os venezianos contrapunham a supremacia da cor. Há quem diga que tudo isso se deveu a influência do contato direto e cotidiano com as águas dos canais e do mar – que garantiu, por sinal, a soberania econômica desta cidade durante tanto tempo, se comparada às outras províncias da Península Itálica naquela altura.

Jessica e Shylock, personagens de “O mercador de Veneza”, num quadro de Maurycy Gottlieb

O século XVIII, dando agora um salto na História, nos legou a obra de Canaletto, pintor rapidamente recordado pelos delicados e cuidadosos panoramas venezianos. O século XIX, por seu lado, nos deu uma visão duplicada de Veneza: de um lado a cidade surge cercada de mistérios, de histórias assombrosas de afogamentos, de crimes, mas por outro de amores trágicos, de sofrimentos e até mesmo, por vezes, de decadência, visão essa que, de alguma maneira vai ecoar no século seguinte, nas palavras de Sartre e Mann. Basta lembrarmos que, séculos antes, em “O Mercador de Veneza” (1596-1598), de Shakespeare, o drama e a decadência já eram a atmosfera predominante, embora a peça seja considerada uma obra-prima da comédia. Do mesmo autor, em “Otelo, o Mouro de Veneza” (c. 1603) são a inveja e a ruína humana que encontram os seus lugares. Mais tarde, no século XIX, nasceu a Bienal de Veneza (1895), hoje uma das exposições de arte mais importantes do mundo.

Tintoretto, “Triunfo de Veneza” , óleo s/ tela (1584), Palácio Ducal de Veneza (detalhe).

A alvorada do século XX mostra-nos conscientemente Veneza segundo todo o peso das histórias nas quais a cidade foi assunto, tema ou cenário. Desde Thomas Mann, no início do século, com a “Morte em Veneza”, a Sartre, que dedicou à cidade um conjunto de ensaios, entre os quais “O Sequestrado de Veneza”, sobre Tintoretto, pintor que nasceu e sempre trabalhou em Veneza. É deste livro o primeiro dos trechos literários selecionados que seguem.

***

“…em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago . Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a ilha da frente com inveja: ali, há… o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim. Normalmente, contento-me com o que tenho mas, em Veneza, sou presa de uma espécie de loucura invejosa; se não me contivesse, estaria o tempo todo nas pontes ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece; me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou”.

SARTRE, Jean Paul. Veneza de minha janela. In.: O sequestrado de Veneza. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.

Fotograma do filme de Visconti “Morte em Veneza”.

“Finalmente ele o revia, o mais incrível desembarcadouro, aquela deslumbrante, fantástica composição arquitetônica que a República oferecia ao olhar atônito e cheio de veneração dos navegantes que dela se aproximavam – imponência etérea do Palácio, a Ponte dos Suspiros, as colunas à beira d’água com leão e o santo padroeiro, o perfil da fabulosa catedral sobressaindo suntuoso, o portal e o gigantesco relógio, que se deixavam entrever – e, enquanto o contemplava, Auschenbach ponderou que chegar a Veneza de trem, vindo por terra, era o mesmo que entrar num palácio pela porta dos fundos, e que jamais alguém deveria aproximar-se da mais incrível de todas as cidades a não ser de navio, atravessando o mar, como o fizera agora”.

MANN, Thomas. Morte em Veneza. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

“De novo, na imaginação eu te contemplo! Mais uma vez teu vulto se ergueu diante de mim… Não, não como te encontras, no frio vale, na sombra!, mas como deverias estar, dissipando uma vida de sublime meditação naquela cidade de sombrias visões, tua própria Veneza, que é um Eliseu do mar querido das estrelas, onde as amplas janelas dos palácios paladinos contemplam, com profunda e amarga reflexão, os segredos de suas águas silenciosas”.

POE, Edgar Allan. O Visionário, várias edições livres na web.

 

Fonte: OBVIOUS

EUGÉNIO DE ANDRADE, in ATÉ AMANHÃ (Linear, 1978) , in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)

FRENTE A FRENTE

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
– e é tão pouco.

*

Fotografia: Embrace, de Don Mennig

*

(CC)

(extraído da página Facebook

de Anabela de Araújo)

com a devida permissão