fonte do texto e foto: Obvious

gisela-57e7-thumb-800x532-126863Simplesmente Gisela

publicado em musica por Catarina Vasconcelos
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Gisela João, 31 anos, fadista. Traz o fado arrastado na voz e o Minho dependurado ao peito, colado ao coração. Sorri quando dele fala. Enaltece-o. Orgulha-se dele, das suas raízes. Canta-o como mais ninguém. Põe-lhe amor de sobra, o mesmo amor que deposita em cada poema feito fado.

Gisela. Gisela João. Nascida a 6 de Novembro de 1983, em Barcelos. O Minho corre-lhe nas veias e o fado, desde cedo, colou-se-lhe à alma e de lá não mais saiu. Apaixonou-se por ele, pelo fado, ainda criança, enquanto cuidava dos irmãos e ouvia o “Deus me perdoe” de Amália Rodrigues. Percebeu que a profundidade dos poemas e o jeito como eram cantados lhe tocavam o coração de forma especial e decidiu que seria esse, também, o seu caminho. Com 16 anos começou a cantar na “Adega Lusitana”, em Barcelos. No ano 2000 mudou-se para a cidade do Porto, para estudar design de moda, onde começou a cantar nas casas de fado da Ribeira. O design fica para trás e Gisela troca o Porto por Lisboa, a Ribeira pela Mouraria, o anonimato pelo sucesso em crescendo.

Em 2008 grava o seu primeiro álbum a solo – O meu fado – ainda sem grande reconhecimento e em 2009 grava um novo álbum, desta feita, como vocalista do grupo Atlantihda. Já em Lisboa começa, pouco a pouco, a conquistar o seu lugar, primeiro, nas típicas Casas de Fado, passando, depois, para palcos como o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém e o Teatro São Luiz. A gravação de mais um disco não tarda e eis que, a 1 de Julho de 2013, sai o seu álbum em nome próprio – Gisela João – que, em duas semanas, chega ao número um do top de vendas nacional, tendo sido considerado o melhor álbum nacional do ano por publicações como o Expresso e o Público, chegando mesmo a Disco de Platina. Neste álbum podemos ouvir temas como Meu amigo está longe, de José Carlos Ary dos Santos e, anteriormente, cantado por Amália Rodrigues, Vieste do fim do mundo, de João Lóio e Antigamente de Manuel de Almeida. Há ainda lugar para os Malhões e Viras do Minho, não fosse Gisela uma minhota de gema, com orgulho tremendo nas suas raízes.

Gisela recebeu ainda vários prémios, tais como o Prémio Revelação Amália, o Prémio José Afonso 2014 e ainda o Globo de Ouro na categoria de Melhor Intérprete Individual 2013. Em Janeiro de 2015, esgotou os Coliseus (Porto e Lisboa) com dois concertos absolutamente soberbos.

Mas, afinal, o que tem Gisela de tão especial?

Aquando do lançamento do seu álbum em nome próprio, Gisela João foi aclamada pela crítica. A sua jovialidade e forma singular de expressar as palavras trouxeram uma lufada de ar fresco ao novo fado. Dona de uma voz rouca, quente e suave, põe amor de sobra nos poemas que canta. Sente-os de forma quase visceral e transmite isso ao seu público. É quase impossível ficar indiferente. Quando Gisela canta a dor e a saudade, sente mesmo essa dor e essa saudade. Da mesma forma que, quando começa a cantar e a dançar os viras e malhões do Minho, tudo é alegria, tudo é festa e folia. É genuína em tudo. Não precisa de saltos altos para se fazer notar. Os seus ténis são o suficiente para que possa mostrar-se ao mundo. As suas roupas invulgares, criadas por si, dão-lhe um toque ainda mais irreverente. E as tatuagens que tem desenhadas nos braços são como um mapa de histórias e rebeldia, mostrando ao mundo que não há trajeito ou protocolo quando o assunto é talento.

Pequena de corpo, gigante na voz, consegue fazer diferente. Consegue cantar diferente o mesmo fado que outros cantam ou cantaram. Consegue trazer para si todo o sentir dos poetas, toda a beleza dos versos. O seu fado transporta-nos para um outro patamar, um nível superior. É difícil explicar por palavras. Só quem ouve temas como Madrugada sem sono ou Vieste do fim do mundo consegue perceber a grandeza daquilo que Gisela consegue transmitir. Só quem se senta, no escuro, a ouvi-la cantar, é que consegue sentir a pele arrepiar e as lágrimas saltarem dos olhos, tal é a beleza daquele momento. Só quem canta e dança com ela, ao som dos viras e malhões, consegue beber da sua alegria que contagia, que simplifica, que mostra como é possível conciliar o melhor de dois mundos.

Gisela é assim. Espontânea. Fiel a si própria. Simples, tão simples, de uma simplicidade que a torna ainda maior. Não raras vezes, passa tardes a bordar e a mimar a sua gata Mimi. É como é, sem artefactos ou adereços que lhe camuflem a alma. Canta como é. Canta com amor, tanto amor. E ri, e não esconde a traquinice que tem no olhar nem a eterna criança que traz no coração. E, por isso, é mais feliz assim, quando canta, quando encanta. E, por isso, faz-nos mais felizes, assim, quando temos o privilégio de a ouvir cantar.

Quem ainda não conhece a Gisela, deveria conhecer. Deveria sentar-se e ouvir o seu fado. E deixar-se ir na sua voz, feita de alegria e tristeza, de saudade e amor. Vale a pena. Vale muito a pena.

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A propósito de A SEVERA

“A Severa” estreia a 18 de Junho de 1931 no cinema S. Luís. Baseado na obra de Júlio Dantas foi o primeiro filme sonoro realizado em Portugal, embora a sonorização tivesse que ser feita nos estúdios da Tobis, em Épinay-sur-Seine na França. Custou 1800 contos e foi um enorme sucesso de bilheteira, estando 6 meses em exibição. Intérpretes: Dina Teresa, António Luís Lopes, Silvestre Alegrim entre muitos outros.
Argumento: A história da famosa cigana Severa e de seus amores por um jovem cavaleiro e fidalgo, D. João Conde de Marialva. O problema é que este está dividido entre a Severa e uma rapariga de sangue azul. Baseado na obra de Júlio Dantas onde ressaltam os costumes populares e a sociedade de 1848.


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Severa, existe alguém mais bela do que eu?
Projecto MALABAR(terminado)
Execução: José António Aires Pereira e pode ser vista as várias fases
da criação da mesma, no blogue de ANA VIDIGAL
http://anavidigal.blogspot.pt

 

O Fado já é Património Imaterial da Humanidade

Distinção é uma alegria numa altura em que Portugal precisa de notícias positivas
27 de novembro de 2011

O secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirmou hoje em comunicado que a distinção da UNESCO ao Fado dá aos portugueses “alegria […] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas”.

Num comunicado enviado à Lusa, Francisco José Viegas, afirma que a decisão tomada hoje em Nusa Dua, na Indonésia, irá “contribuir para que as atenções do mundo se voltem para um dos emblemas da nossa cultura e do nosso talento”.

“Esta decisão – escreve o governante – dá-nos também, aos portugueses, um motivo de alegria. Alegria essa que, nos dias que correm, tem encontrado razões mais escassas para manifestar-se”.

“Devemos orgulhar-nos, todos, sem exceção, por o Fado ser agora Património Cultural Imaterial da Humanidade inteira”, afirmou Francisco José Viegas, acrescentando tratar-se “de um reconhecimento justo, que os portugueses não deixarão de festejar e de valorizar”.

A decisão do VI Comité Inter-Governamental da UNESCO “é uma notícia que nos honra e comove — e que, além do mais, surge numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas”.

“Hoje, as fadistas e os fadistas, sejam cantoras e cantores ou guitarristas, compositores ou letristas, estão de parabéns. De cada um depende a continuidade de uma expressão musical que, pela sua qualidade, intensidade e tradição, alcançou agora este patamar, a acrescentar ao reconhecimento internacional que já conquistara”, acrescentou Francisco José Viegas.

O secretário de Estado felicita também “todas as entidades e individualidades que se envolveram neste processo ao longo destes anos”.

“Não posso deixar de saudar também toda a equipa da Candidatura do Fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade na pessoa do senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e meu amigo, António Costa, a quem naturalmente já apresentei os meus cumprimentos e a quem felicito especialmente”, lê-se no mesmo comunicado.

Francisco José Viegas, “em nome do Governo português”, cumprimentou aos delegados dos 24 países que integraram o VI Comité Intergovernamental da UNESCO que “criteriosamente avaliaram tanto esta como as restantes candidaturas”.

Os 24 Estados que constituem o Comité são: Albânia, Azerbaijão, Burquina-Faso, China, Chipre, Coreia do Sul, Croácia, Cuba, Espanha, Grenada, Indonésia, Irão, Itália, Japão, Jordânia, Madagáscar, Marrocos, Nigéria, Níger, Omã, Paraguai, Quénia, República Checa e Venezuela.

A candidatura do fado a património Imaterial da Humanidade foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Municipal de Lisboa no dia 12 de maio de 2010 e apresentada publicamente na Assembleia Municipal, no dia 01 de junho, tendo sido aclamada por todas as bancadas partidárias.

No dia 28 de junho de 2010, foi apresentada ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e formalizada junto da Comissão Nacional da UNESCO. Em agosto desse ano, deu entrada na sede da organização, em Paris.

@Lusa
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