Carta de Adriana Simões ao pai que morreu nos fogos

Leia aqui a carta na íntegra:

“Foi no dia 15 de outubro de 2017. Eram duas e meio da tarde. Eramos quatro e estávamos a preparar-nos para a festinha de aniversário da Inês. Aliás, eramos cinco. O Rafael estava connosco, como sempre está em qualquer reunião de família.

Lá por cima, como costumávamos dizer, andava tudo a arder. Não tudo, mas esta era a forma que encontrávamos de dizer que o fogo se tinha acendido e que a probabilidade de chegar a afetar-nos era grande.

http://www.tvi24.iol.pt/pub/mrec.html?head_page=artigo&n=2

A mãe disse para irmos andando para a festa. Eu e o Rafael. Deu-me o cartão de crédito, o pin, disse-nos que escolhêssemos uma prenda para a menina e que fossemos andando, que logo lá iam ter.

E assim fizemos.

Recebi um telefonema da mãe: ‘vão para a festa. O fogo já anda no quintal do avô e nós vamos para cima’. Desliguei pensando o que pensei das outras vezes em que pai, avôs, tios tinham ido combater os fogos que alguém por maldade, de anos em anos, decidia atear.

Mas o fogo este ano queimou mais, ardeu mais, doeu mais.

A mãe ligou. Estávamos no carro. A caminho da casa da avó. E a mãe disse: ‘Adriana, o barracão para onde o teu pai fugiu está a arder. Desliguei o telefone, gritei, chorei, esperneei, fiz o Rafael ir mais rápido. Eu não sabia ao que me agarrar. Não sabia no que acreditar. Terias fugido? A mãe acreditou sempre que sim.

Eram quase sete horas e estávamos todos reunidos em casa da avó. Em prantos, aflitos, os telemóveis já não tinham sinal. Nem o teu, nem o do tio, nem o do avô… Não conseguíamos falar com ninguém dali, porque as linhas de comunicações tinham ardido todas. As botijas de gás explodiam por aquelas aldeias fora.

Eu previ tudo, pai. Mas as certezas da mãe fizeram-me ter uma pontinha de esperança que voltasses. Ferido, queimado, mas que voltasses.

Afinal, a casa onde estavas não era segura, pai. E não era uma casa, era um barracão. Mas tu achaste que estavas seguro ali. Tu disseste à mãe ‘eu estou bem, este sítio é seguro’. E, 10 minutos depois, ninguém sabia mais de ti. Foram nove horas intermináveis à procura de contactos a quem nos pudéssemos agarrar para saber de vocês. Se estavam em casa de alguém, se estavam no hospital, se estavam caídos algures, onde ainda alguém os pudesse ir salvar. Mas não.

Sabíamos que o avô estava bem, porque íamos falando com ele. Mas de vocês, nada.

À meia-noite, confirmaram-nos, pai. Nunca mais te veria. Colapsei. Achei que iria contigo porque a dor era tão forte, tão dilacerante, tão grande, tão profunda, tão revoltante, que achei que não teria mais força para sequer me levantar novamente daquele sofá.

Foste tão cedo. Não me viste assinar o meu primeiro contrato. Não me levaste ao altar. Nunca te chamaram de avô. Nunca chegaste a entrar na tua nova casa, pai, que era o teu sonho e da mãe. E o projeto estava aprovado.

Foi tão difícil perder-te pai. O tio tentou ajudar-te, mas ficou lá contigo. Sabes? Eu acho que ele tentou trazer-te, mas a não conseguir preferiu acompanhar-te na tua ida a deixar-te sozinho naquela situação. Ele não conseguiria lidar com isso. Ele não conseguiria vir embora e deixar-te morrer.

Perdi-te para a coisa mais horrível que pode ameaçar alguém. Mas continuo a amar-te. Continuo a achar que foste a melhor pessoa que eu conheci em toda a minha vida. Que admiro muito a tua força de vontade. Aquela que eu também herdei, sabes? De ti. E a tua alegria em ver os outros felizes. A tua prontidão em ajudar. A tua calma para apaziguar as demais situações.

Acho que a última vez que te disse isto, pai, tinha uns quatro anos. Mas eu amo-te. És o melhor do mundo. E acredita: aquilo que deixaste cá por fazer, eu vou fazê-lo por ti. Prometo.”

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Talvez apenas um tempo…

Amigas/os:

Neste momento estou numa luta comigo mesma se devo continuar ou

não a manter os meus blogues ativos.

Motivos pessoais e de saúde, me estão tirando a vontade para este

tipo de tarefas.

É óbvio que gosto dos meus blogues e de visitar os vossos, mas a vida

está constantemente a fazer com que façamos opções e é isso que se

me está colocando.

Estou a dias de completar 71 anos e o meu marido 75. Ambos estamos

com problemas de  saúde que requerem que tenhamos mais cuidado

e passemos mais tempo nos médicos e a disposição e leveza da minha

parte está muito diferente.

A ausência das crianças na Irlanda(que nos deixaram à poucos dias)

mais acentua a nossa tristeza. Enfim, talvez seja apenas “um mau

momento” e eu volte daqui a uns tempos.

Obrigada a todos.

Bjs.

Irene Alves